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quarta-feira, 8 de abril de 2009

" ... estado de ereção intelectual permanente" - Livro de Rubem Alves "Ao mestre com meu carinho"

SOBRE TRANSAR E ENSINAR 2



(...)A analogia entre fazer amor e educação me sugeriu uma

outra divertida e instrutiva analogia: a analogia entre

a inteligência e o pênis. Se acham que fiquei doido,

digo-lhes que outras pessoas, antes de mim, perceberam

a mesma coisa. Fernando Pessoa, por exemplo, na sua

"Saudação a Walt Whitman", fala sobre "uma ereção

abstrata e indireta no fundo da minha alma...”

E Dalí dizia: "Eu vivo em estado de ereção intelectual

permanente." Ereção, como é sabido por todos; é o

estado do pênis, contrário à sua condição de flacidez.

Flácido, o pênis tem apenas funções excretoras,

urinárias. Freqüentemente os homens se envergonham

dele, em decorrência do tamanho, que julgam pequeno.

Ereto, o pênis é outro órgão. Tem poder para dar

prazer e para fecundar. Um pênis ereto é uma promessa

de amor e uma possibilidade de vida. E o que é que

produz o pênis ereto? Sei as respostas dos médicos.

São os hormônios, é o sangue, são os músculos.

É verdade. Esses elementos constituem a hidráulica

da ereção. Mas o que é que dispara esse processo?

Qual o fator excitante original? Sem excitação não

existe ereção.

É assim, precisamente, que funciona a inteligência.

Lá está ela, flácida e ridícula. Pequena

demais. Talvez inexistente. "Curto de inteligência,

meio burrinho...”, se diz. Não se nota que ela está

assim porque ainda não houve um objeto de amor que a

excitasse para ter uma ereção.

Encontrei, num aeroporto, um livro de psicologia barata.

Intrigado pelo nome A sabedoria do pênis (Aha! Fiquei

curioso! Minha inteligência teve uma ereção, excitada!),

comprei. O autor relatava de uma mulher que se

queixava de que todos os homens eram impotentes.

Ao que ele comentou: "Ela não percebia que

ela tornava os homens impotentes...” A inteligência

é assim: há professores - e incluo aqui os professores

de escola, pais, mães, instrutores - que têm a

extraordinária capacidade de criar impotência de

inteligência. (Pois, se existe impotência sexual

e a analogia é válida, tem de haver impotência

de inteligência.) Seria interessante que houvesse

avaliação dos professores para saber quais são

os excitantes e quais são os brochantes. Esses

últimos são perigosos. Exibem seus talos de saberes

para humilhar os que ainda não sabem. O que desejam,

mesmo, é produzir eunucos.

O pênis em ereção está procurando. Ele ainda não encontrou.

Por isso sofre. A inteligência em ereção é também

uma procura; ela não tem ainda. Não confundir habilidade

com inteligência. Habilidade são os automatismos

desenvolvidos para resolver exercícios. Elas têm

a ver com aquilo que já se aprendeu. O vestibular

é uma prova de habilidades. Ser o primeiro no

vestibular é prova de habilidade e de memória.

Mas não é prova de inteligência. Porque a inteligência

é a procura do desconhecido que não foi ensinado e não é sabido.

Diferente do pênis ereto, o útero é o vazio onde se

depositam sementes. Lá o sêmen não fica sêmen.

Ele se encontra com o óvulo que estava à espera.

E aí uma coisa se inicia, diferente de tudo o

que houve no passado. O útero é lugar de criação,

onde o novo é gerado. A mente é como o útero:

nela o pensamento procria. É nela que se geram

os poemas, a literatura, as obras de arte,

as invenções, as teorias científicas. Não

confundi-la com a memória, que é o lugar onde

ficam guardadas as repetições. A memória é

um estômago de ruminante: as coisas vão e

voltam. É assim que se fazem as avaliações

escolares: testando a habilidade do aluno

para repetir o que foi anteriormente aprendido.

Avaliações escolares e exames vestibulares são

testes dos estômagos ruminantes dos alunos.(...)

RUBEM ALVES - DO LIVRO:"Ao professor com meu carinho"

"Ao professor, com o meu carinho" (2004)
Rubem Alves, com seu estilo peculiar e contundente,traz à tona algumas das críticas que vem apresentando, ao longo do tempo, ao sistema educacional. Quem o conhece de perto sabe que suas críticas são a manifestação de uma ansiedade profunda por ver oferecida a nosso alunos uma educação mais justa, por meio da qual também o professor possa se realizar em sua vocação de mestre.

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