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quarta-feira, 8 de abril de 2009

LIBERDADE SEM MEDO - A.S.NEILL

A Pedagogia de A.S. Neil
25.Fevereiro.2009

Mesmo antes de conhecer suas ideias, já pensava numa explicação que se aproximava daquela defendida pelo educador britânico A. S. Neill sobre a hipocrisia das escolas. Conforme ele escreveu no seu livro Liberdade sem Medo, a educação deve possuir como principal característica a adequação do interesse da criança àquilo que ela tem real necessidade de saber.

Para ele, a imposição de um conteúdo educacional comum cria cidadãos padrões, despersonalizados, e o que é pior, que não sabem aplicar na vida prática o conhecimento adquirido na escola. São alunos, enfim, sem espírito de contestação. O aluno apenas apreende, memoriza e depois esquece - nunca reflete.

E por mais que os professores digam que seus alunos devem pensar criticamente sobre o conteúdo que lhes é ensinado - e os professores dizem isso mesmo - eles nunca vão desejar realmente que seus alunos pensem criticamente. Por uma simples razão. Pensar criticamente é, antes de mais nada, questionar autoridades. É questionar o autor do livro, é averiguar se o que é ensinado é plausível, é tentar descobrir os pré-conceitos e ideias embutidas numa simples teoria.

Aqui surge o problema do “pensar crítico”: o que é o professor se não autoridade? Ensinar o aluno a pensar por si próprio é o primeiro motivo para que ele não obedeça mandos que se sustentam, na maior parte das vezes, pela violência. O medo que um professor impõe ao aluno é apenas o medo que ele tem de ser exposta sua completa e total falta de autoridade. Seu lastro é a ameaça, nada mais.

Para A.S. Neil, por vez, a função da escola seria a de deixar a criança livre para aprender o que bem entender. Ao mesmo tempo, ela deveria ser capaz de fornecer meios necessários para que os jovens desenvolvessem suas potencialidades inatas. Se eles quisessem ser artista, pois bem. Se pretendessem ser médicos ou operários, ninguém teria o direito de desviar seus estudos nesse sentido.

Tendo por principal característica a não-repressão, sua pedagogia prima pela livre e espontânea escolha por parte das crianças em selecionarem seus interesses. Nesse sistema, não há avaliações individuais; não há mensuração do conteúdo adquirido. Existe apenas o estímulo de fazer o conhecimento ser útil para determinada finalidade.

Escreveu ele: “A criança modelada, condicionada, disciplinada, reprimida, a criança sem liberdade cujo nome é Legião, vive em todos os cantos do mundo. Vive em nossa cidade, mesmo ali do outro lado da rua. Senta-se a uma cadeira monótona de monótona escola, e mais tarde senta-se a uma escrivaninha ainda mais monótona de um escritório, ou no banco de uma fábrica”.

Por fim, ele ainda se refere a essa criança criada sob os moldes tradicionais como sendo “dócil, disposta a obedecer a autoridade, medrosa da crítica, e quase fanática em seu desejo de ser normal, convencional e correta. Aceita o que lê ensinaram quase sem indagações, e transmite a seus filhos todos os seus complexos, medos e frustrações”.

O mais curioso é que vemos diariamente isso; pais transmitem aos seus filhos os mesmos ensinamentos que seus pais religiosamente ensinaram, que por sua vez receberam de seus avós, bisavós e assim sucessivamente. Uma cadeia de ensinamentos que nunca é questionada. Ao contrário do que ensinava A.S. Neil, a escola é utilizada como um dos meios mais eficazes para a manutenção desse tipo de espírito. A ruptura, talvez, seja mero preconceito da tradição.

FONTE: http://orinocerontevoador.wordpress.com/2009/02/25/a-pedagogia-de-as-neil/

segunda-feira, 23 de março de 2009

ESTUDANTE NÃO É PEIXE EM AQUÁRIO!

Estudante não é peixe em aquário, mas é assim que é visto e tratado!
A escola retira quase que totalmente o aluno de seu contexto, dá-lhe uma vida artificial , num ambiente totalmente irreal.
Separa os estudantes de outras pessoas muito importantes para suas vidas!
Projetos que educam dentro da cidade...conheço um aqui em São Paulo, não de perto,mas podemos perceber que este projeto tenta integrar os jovens e crianças o máximo que pode ao bairro, que no caso é a Vila Madalena.
Este avanço para se consolidar teria de ter a cooperação de todos os cidadãos!
Mas como? A mentalidade das pessoas está no centro disto!
O tal do slogan do governo "Todos pela educação", mero blá-blá-blá,com uma campanha equivocada e nojenta,totalmente fora de nossa realidade,mostra-nos assim na cara, que governo não entende nada de educação, que o MEC anda mais pra lá do que pra cá!

E assim,a velha tragicomédia da educação brasileira continua firme e forte! porque no Brasil não existem cidadãos, existe sim um aglomerado de pessoas sem objetivos comuns!
O capitalismo tardio corroeu tudo! Nós que trabalhamos e que nos preocupamos com a educação é que temos de fazer algo! e muito rápido de maneira certeira! sem titubear!
O que seria isso? sim, o que seria? Esta resposta só surgirá quando todos perceberem que a resposta está em todos nós e não em só um!
Isto é um dos cernes da Educação democrática, ninguém tem a resposta, TODOS A TEM!!
Todos os educadores cidadãos precisam urgentemente botarem adiante sua cidadania!! para poderem não mais tratarem estudantes como peixes em aquários!

Nadia Stabile - 23/03/09

quarta-feira, 18 de março de 2009

Para discutir sustentabilidade com crianças.

Este comercial argentino é um bom gancho para uma conversa sobre atitudes individuais de sustentabilidade com crianças. Ele mostra de forma bem concreta que somos todos responsáveis pelo meio ambiente e que precisamos rever nossos hábitos, mesmo os mais inocentes, se quisermos viver em um planeta saudável para todos os seres vivos.

quarta-feira, 11 de março de 2009

TRISTEZA INFANTIL - JULIANA MARIA




Hoje conheci um menino de seis anos que tentou se matar.
Duvidei da possibilidade monstruosa dessa ação ter sido arquitetada por ele sem a influência do mundo adulto, pois não posso conceber a idéia de uma criança pensar por conta própria em exterminar sua jovem vidinha cheia de caminhos e porvires e tentar, de fato, fazê-lo.
Aos seis anos, não se tem a noção do existencialismo nem a consciência de concretude da própria vida e que dá para acabar com ela. Isso tudo é muito complexo para uma criança.

Hoje na escola muitos comentavam, horrorizados com a notícia, que ele poderia estar brincando, aprendendo coisas novas...
E está: aprendeu o que não dá certo quando o assunto é Suicídio.
Aprendeu também que homens, como seu pai, saem de casa sem avisar e não voltam mais e que mulheres, como sua mãe, choram e praguejam na frente dos filhos o abandono físico e moral.
E também aprende todos os dias que deve ficar sentado numa carteira, quieto, ir ao banheiro somente duas vezes em seis horas de aula em horário pré-determinado, que não deve emprestar seu material para o coleguinha que esqueceu de trazer e que brincadeira tem hora (e não é na escola), mesmo para quem tem seis anos, pois estão ficando grandes, afinal, já estão na PRIMEIRA série.

A tristeza do menino é urgente.
É sofrimento o que move a vida dele em cada gesto e atitude, inclusive no aprendizado.

Agora, é a vez de surgirem novas possibilidades para ele parar de sofrer. E a escola teria que se mostrar como uma dessas possibilidades, um espaço de acolhimento e diversão (no sentido não corrompido da palavra, ou seja, não como o oposto de obrigação, mas como um complemento inseparável). O problema é que a escola pública também está se suicidando, mesmo com novas propostas pedagógicas que em nada combinam com a estrutura fracassada em que ainda funciona.

Hoje o menino de seis anos tentou se matar e eu pergunto, quem se responsabiliza?

Sobre Suicídio Infantil:
Pouco se tem falado ao longo dos tempos sobre esse assunto, aliás, dei um google e não encontrei muita coisa. Assunto quase inexistente.
Será que hoje em dia o conceito de morte está mudando para as crianças ?

quarta-feira, 4 de março de 2009

ESCOLA ,PROFISSÃO E CIDADANIA

"...Quando Foucault compara a escola com os manicômios e os presídios, está defendendo que todos esses instrumentos do Estado são utilizados de forma arbitrária..."
...Fechar as escolas e abrir as portas dos presídios e manicômios...
...O manicômio, a clínica, o presídio e toda arqueologia descontínua das ... e de confinamento estudadas por Foucault (a escola, a fábrica, o presídio, o hospital..."
***********************************************************************************
Hoje resolvi escrever por causa de uma proposta do Prof. Ozaí num de seus blogs sobre por que ter um blog? e por que escrever? Este exercício que pratico quase sempre, tendo como testemunha um professor universitário, ou vários, que eu nem imagino se algum outro leia, além do Prof.Ozaí!...
Então escrevo porque me faz bem escrever! escrevo porque sinto-me mais cidadã,participando mais do contexto que vivo! esta interação me faz muito bem! e é sobre este ponto que gostaria de escrever hoje! Como coloquei acima palavras em negrito que referem-se as ideias de Foucault!
A palavra CONFINAMENTO é uma das mais significativas sobre o que quero escrever !
Infelizmente ainda vivemos o confinamento em muitas situações de nossas vidas!
"Guetos" de idosos nos asilos, "Guetos" de crianças nas escolas,"guetos" de operários na fábricas,"guetos" de presidiários nas cadeias! Estes "guetos" que na maioria das vezes formam-se independentemente da vontade de seus membros,ou muito pelo contrário...as pessoas são CONFINADAS mesmo como disse Foucault!
Aquela frase que diz que a educação tradicional faz com que as pessoas percam-se de si próprias,para mim é absolutamente verdadeira! pelo simples fato de que para começar, se somos retirados de nosso habitat (contexto) normal, natural, e trancados num outro contexto fragmentado, e desarticulado do contexto geral, acabamos nos tornando um nada, para a gente mesmo e para a sociedade em que vivemos!
Concordo totalmente quando Foucault diz que escolas, presídios,manicômios e etc, são instrumentos do Estado utilizados de forma arbitrária. Porque sempre que há atitudes exercidas de cima para baixo, por tanto de forma autoritária,só pode haver arbitrariedade pois não são atitudes,resoluções,surgidas da integração e interação dos grupos interessados!
A questão profissional ,vital para qualquer um de nós, acaba tornando-se uma tragédia para a maioria das pessoas,posto que por ser questão intrinsecamente ligada ao contexto das pessoas,e estas perdendo-se de si próprias e de sua própria realidade...acabam por sentirem-se sem quase nenhuma, ou nenhuma mesmo, utilidade,função,serventia para o funcionamento natural da sociedade! Pois se é na escola que colocamos muitas expectativas de vida e de profissionalização inclusive, e esta não funciona como deveria, mas muito pelo contrário, nos acomete de brutais rupturas com o meio, produzindo indivíduos confinados e sem mentalidade de cidadãos...
causa-nos a triste constatação lógica! se "educamos" crianças para serem cordeiros, não poderemos querer que no futuro elas se tornem abelhinhas! Abelhinhas !!! pois estas sabem viver em coletividade de forma invejável!!

Quando será que começaremos a reverter estes absurdos !?
Quando será que aprenderemos a fazer uma auto-análise de verdade e constatarmos que nossa vida escolar e universitária foi (e ainda é) um caos!? que nossos empregos são outro caos!?
Que nossa sociedade é um caos!? e que para resolvermos transformar tudo isso que está aí,
precisaremos ser "abelhinhas","formiguinhas",que trabalham em conjunto para um bem comum,e que nem precisam de universidades, ou escolas, ou presídios e manicômios!
elas só precisam da vontade de trabalhar e de fazerem aquilo a que foram destinadas!
NOSSA MISSÃO!! QUAL É?

Nadia Stabile - 04/03/09

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Miguel Nicolelis, seus sonhos e nossos sonhos...


Novembro 2008


Nos dias 05 e 06 de novembro, o presidente da AASDAP, Miguel Nicolelis, realizou encontros com as turmas de alunos da Escola Alfredo J. Monteverde de Natal e Macaíba. Falou de sua história de vida, de sua infância e adolescência, das pesquisas que desenvolve, da importância de sonhar e batalhar para transformar os sonhos em realidade.



Estimulou cada um dos meninos a se apresentar e falar de seus sonhos. Ouvindo-os atentamente e respondendo às indagações e questionamentos dos alunos, dialogou afetiva e respeitosamente com todos e com cada um, falando com e não para eles. Os registros da maioria dos adolescentes mostram como Miguel conseguiu tirar do altar a ciência e o cientista ofertando-se como testemunho orgânico ao saboreio do saber.



Depoimento de alunos

Unidade de Macaíba

-- O mais importante foi que ele falou sobre nunca desistir.

-- O que achei mais significativo foi que ele falou de ir em busca dos
sonhos apesar das críticas.

-- Saber da importância da avó em sua vida.

-- Ele ter nos escutado e vice e versa.

-- A presença de Miguel Nicolelis, porque ele é nosso presidente é médico
e cientista e eu abracei ele.

-- O orgulho de ser brasileiro.

-- Ele estar pronto para responder as perguntas dos alunos.

-- O gosto na profissão de ser cientista e dele falar de sua vida.

-- Das dicas de como falar em público, de responder as perguntas dos
alunos com clareza e da pesquisa para uma doença chamada tremedeira.

-- Ao declarar que nós alunos somos o sonho dele.

-- Quando ele descobriu que o cérebro era como uma sinfonia.

-- Pelo incentivo dado a nós de seguir nossos sonhos.

Unidade de Natal

-- Para mim foi bom, eu sempre quis saber quem foi o homem que
planejou este lugar onde duas vezes por semana eu venho.

-- O exemplo de um sonho que está quase completo, que depende da
felicidade e sonho dos outros.

-- Eu fiquei comovida foi quando ele falou que a ciência tem capacidade
de fazer voltar a andar uma pessoa paraplégica.

-- Os experimentos dele sobre a macaca que se movimentou e fez o
robô se movimentar e em troca ganhava suco de frutas.

-- Ele contou como surgiu a escola e a gente pôde ouvir os sonhos de
nossos colegas.

-- O fato de ele lutar pelos seus sonhos mesmo quando ninguém
acreditava que ele pudesse implantar uma unidade de ensino aqui.

-- Esse dia ficou marcado na minha vida... me incentivou mais ainda
a não desistir jamais.

-- Que todos os sonhos são possíveis.

-- Achei muito interessante por que ele falou um pouco do nosso brasileiro
Santos Dumont que muita gente não acreditava que ele iria voar, mas ele voou.

-- Que essa foi a primeira escola do mundo que é assim.

-- Gostei de saber que somos famosos em outros lugares.

-- Achei interessante o jeito dele se expressar, pensei que um cientista
falava bem difícil.

http://www.natalneuro.org.br/noticias_brasil/2008-11novembro.asp

Nicolelis, Miguilins e o Mutum



Miguel Nicolelis



“Ele queria ver mais as coisas, todas, que o olhar não dava”.
(Guimarães Rosa, in: Manuelzão e Miguilim)


Triste, triste é o talento que nunca pode florescer, que persiste perenemente asfixiado na anemia de recursos e de oportunidades. Doloroso é ver vidas que se queimam inapelavelmente na fogueira da miséria, cuja fumaça é vista de longe por olhares soberbos com preconceito, desprezo e arrogante presunção.

Lindo e sublime é contemplar o manancial se abrir sobre a carência, fazendo aflorar inteligências e dignidade de viver, tornando realidade o que antes era um longínquo potencial.

Miguilim, menino pobre, mas curioso com um mundo do qual não vê nada além de imagens borradas que o cerca, tem sua travessia rosiana marcada pelo encontro com o Dr. José Lourenço, que lhe percebe a miopia e lhe coloca os óculos, permitindo ao garoto ver um universo que, mesmo próximo, nunca lhe fora tangível.

“Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo...”.

As lentes corretivas, a possibilidade de estudar na cidade: o dr. José Lourenço é o catalisador de um processo que dará a Miguilim a possibilidade de se desenvolver como pessoa.

Numerosos são os “Miguilins” Brasil afora. E poucos, muito poucos, são os “doutores José Lourenço”.

Apesar do que se poderia supor a partir do nome, o paulistano Miguel Nicolelis não é um “Miguilim”. É um “dr. José Lourenço”.

Quando ainda era estudante de medicina na USP, nos anos 80, Nicolelis fundou uma associação acadêmica que permitiu às crianças carentes da região utilizar as quadras esportivas da universidade. A entidade estudantil existe até hoje e, através dela, milhares de crianças que não tinham possibilidade de praticar esportes podem fazê-lo em um ambiente que cultiva valores como a solidariedade e o espírito de equipe.

O atual projeto liderado por Nicolelis é muito maior do que a escolinha de esportes. Mas o tamanho de seu desafio não faz frente à grandeza de seu caráter.

Aos 47 anos, Nicolelis é um pesquisador de primeira grandeza nas neurociências, tendo sido apontado como um dos 50 cientistas mais influentes do mundo pela Scientific American. Há anos coordena na Universidade de Duke, na Carolina do Norte (EUA), um laboratório que está na vanguarda da neuroengenharia. Os animadores resultados de seus trabalhos exploram a movimentação de próteses mecânicas sob controle do pensamento, a partir de microchips implantados em regiões estratégicas do cérebro. Suas pesquisas podem trazer uma possibilidade terapêutica extraordinária para pacientes vítimas de lesões medulares, posicionando-o entre possíveis futuros laureados pelo Prêmio Nobel.

Tantos anos produtivos e gloriosos no “Primeiro Mundo” não lhe esfriaram a consciência sobre o país de onde veio. O panteão nacional e a bossa-nova que emana da página do seu laboratório na internet são reveladores. Cônscio do impacto que a educação e a ciência têm na trajetória de um povo, Nicolelis decidiu capitanear um ambicioso projeto que tenta colocar no mapa das neurociências a pobre Macaíba, cidade próxima da capital do Rio Grande do Norte.

É lá que ele cravou a bandeira do Instituto Internacional de Neurociências de Natal (IINN), com o propósito de estabelecer um pólo avançado em neurociências, atraindo pesquisadores da área, sobretudo jovens brasileiros que se encontram espalhados em universidades do exterior.

Além dessa vocação para a excelência na pesquisa, o alvo do IINN é ainda mais amplo: é usar a ciência como agente de transformação social. Por isso, no complexo do Instituto, há também um centro de saúde e duas escolas com bem equipados laboratórios de física, química e biologia, acolhendo jovens carentes de 11 a 17 anos.

Conhecedor das dezenas de boas idéias que brotaram no Brasil, mas que naufragaram em vicissitudes político-econômicas, Nicolelis impulsionou o IINN não só com o apoio dos governos estadual do RN e federal, mas, sobretudo, com o suporte estrangeiro. Nicolelis usou seu enorme prestígio para estabelecer parcerias e angariar fundos junto a prestigiosas instituições do mundo todo, como o Instituto Max Planck (Alemanha), além de universidades da América do Norte, da Europa e de Israel.

O sonho de Nicolelis levantou vôo, embora nem todos os projetos ligados ao instituto estejam já funcionando. Mas já há pesquisadores produzindo ciência, publicando resultados em jornais importantes. É o caso de Sidarta Ribeiro, ex-aluno de pós-doutorado no laboratório norte-americano de Nicolelis. Apaixonados pelo desafio, eles dizem com firmeza: “Escolhemos Natal porque acreditamos que a produção científica brasileira precisa ser descentralizada do eixo Rio - São Paulo - Minas Gerais. O conhecimento de ponta deve ser disseminado para outros pontos do país; o Nordeste é a Califórnia brasileira.”

Nicolelis e seu IINN se contrapõem frontalmente ao zeitgeist brasileiro.

Ele se choca contra os celerados que chafurdam na ignorância da história brasileira, apoiando excrescências ideológicas como o “Movimento República de São Paulo” e “O Sul é o meu país”.

Bate-se contra a proposta irresponsável que introduz na sociedade brasileira o germe do franco conflito racial, através da política de cotas nas universidades públicas.

Digladia-se com os que depreciam e discriminam nordestinos apenas por terem nascido onde nasceram.

Confronta-se com aqueles “bem intencionados” que querem isolar índios do contato com a civilização.

Olha com consciência e civismo para os problemas de seu país, chamando-o pelo nome, Brasil, enquanto muitos outros, em galhofa depreciativamente irresponsável, tratam por “Banânia”, talvez por refutarem o esforço que implica na construção de uma nação, talvez por rejeitarem uma terra que não esteja pronta como outras.

Por mais comovente que seja ver o empenho obstinado de um brilhante cientista que poderia nunca mais olhar para o Brasil, não será Nicolelis e seu IINN que salvarão o nordeste. Ele não é um messias. Tampouco será a transposição do São Francisco ou o Bolsa Família que transformarão o sertão. Não será uma ação governamental isolada que resgatará esse pedaço negligenciado do Brasil. Será um ciclo virtuoso de investimentos individuais, privados e estatais que trará o desenvolvimento à região, segurando migrantes, magnetizando talentos, gerando riqueza. Talvez já esteja começando, com a Ford na Bahia, com Porto de Suape em Pernambuco, com o petróleo em Mossoró, com o IINN no Rio Grande do Norte, com o turismo que atrai cada vez mais europeus para os resorts e pousadas do nordeste.

Acreditar e investir no poder civilizador da produção e difusão do conhecimento é a via mais segura rumo ao desenvolvimento, rumo à dignidade de vida. É o que fará esse jovem país “Miguilim” livrar-se de sua miopia, passando a enxergar o mundo, a si mesmo e seus enormes problemas sem indulgências, sem patriotadas, mas com a esperança que advém do trabalho, do talento, da inteligência e da coragem.

“E Miguilim olhou para todos, com tanta força. Saiu lá fora. Olhou os matos escuros de cima do morro, aqui a casa, a cerca de feijão-bravo e são-caetano; o céu, o curral, o quintal; os olhos redondos e os vidros altos da manhã. Olhou, mais longe, o gado pastando perto do brejo, florido de são-josés, como um algodão. O verde dos buritis, na primeira vereda. O Mutum era bonito! Agora ele sabia.”

Quando curados da miopia causada pela ignorância, pelo preconceito, pela covardia e pela falta de compromisso cívico, o país que se descortina diante dos nossos olhos argutos é ainda cheio de problemas graves, mas pleno de riquezas e de possibilidades. É o nosso Mutum, o nosso BRASIL.



PS: Depois de uma longa temporada na Holanda, Fernando Sampaio retornou ao Brasil. Com sua consciência cheia de ideais iluministas (Lumières), ele empenha sua experiência, sua cidadania e seu trabalho na construção de um país melhor. Leia seu depoimento em:

http://deslumieres.blogspot.com/2008/05/brasil-holanda.html

http://aterceiramargemdosena.blogspot.com/2008/05/nicolelis-miguilins-e-o-mutum.html


sábado, 14 de fevereiro de 2009

FALANDO EM ADAPTAÇÃO....E EM CRISES...


Esses dois ideogramas chineses ao lado, significam "crise".
É formado pelos ideogramas : risco(perigo) e oportunidade.
Sempre lembro disto! e considero os orientais muito mais preparados para a vida. As dificuldades , os problemas da vida,geralmente são a própria vida! fazem parte de nossas vidas! E se pensarmos na vida dos chineses e até dos japoneses,veremos que deve ser repleta de situações a serem transpostas,muito mais complexas do que as nossas.
Nós brasileiros ainda estamos na infância ou no máximo na adolescência em relação a idade de nosso país,e talvez por este motivo, por sermos um povo jovem, consideramos tudo muito além de nós mesmos...
(isto sem considerar que os povos indígenas já estavam aqui muito antes dos portugueses aqui chegarem!)
Esta adaptação à vida que os povos de países antigos ou do velho mundo possuem,fazem com que tenham muito mais discernimento em sua luta diária e não se desesperem, a ponto de perderem a confiança neles próprios,e em sua força de trabalho.
Mas gostaria de falar sobre a nossa não adaptação às injustiças que nos cercam! Mais especificamente sobre educação e sobre nossa cultura machista e capitalista selvagem!
Não é preciso ser gênia para perceber as razões que levaram nossa educação para o buraco!
A mentalidade machista fez com que a educação ficasse relegada às mulheres, como se elas e as crianças fossem da senzala! Os salários por esta razão, cada vez mais foram diminuindo!
Os "machistas" ( esta expressão engloba para mim a mentalidade de toda nossa sociedade,que considera os homens os centros de tudo, e as mulheres simples satélites a servir os homens!)
Por causa desta mentalidade, a educação das crianças geralmente e em totalidade, fica nas mãos das mulheres. Pouquíssimos homens dedicam-se ao magistério. E se formos ver,nas primeiras séries do ensino básico (primário) ou na pré escola,não encontraremos um único homem trabalhando como professor! (isto é realidade em escolas públicas, nas privadas já não sei afirmar, mas acredito que não seja tão diferente).
Se formos olhar para o âmbito doméstico então! raros são os pais que dedicam-se como deveria à educação dos filhos! Constatamos então que minha tese sobre o machismo não é tão absurda assim!
Resumindo, a educação encontra-se neste caos porque as mulheres são muito mais oprimidas do que os homens! e sendo elas a educar as crianças e adolescentes,só poderia dar nisso!
O círculo vicioso tem funcionado muito bem! pagasse mal as professoras, com isso elas não podem estudar, pesquisar como deveria fazer uma verdadeira educadora,aí os alunos tornam-se cada vez mais rebeldes, por causa da má qualidade de ensino, aí então as professoras ficam cada vez mais desesperançadas e pobres, sem poder comprar sequer um livro por mês!
O sistema malha quem? as professoras que ficam cada vez mais desmoralizadas!
As pessoas condicionadas pelo capitalismo atacam as humildes e pobres professoras, porque num pais onde o importante é ter, ao invés de ser... e assim está montado o circo! E as teorias de Paulo Freire e de Tragtenberg, que poderiam proporcionar alguma saída para as professoras, elas nem conhecem! O que fazer então!? Qual a saída para este caos!? Se as crises é que podem nos trazer novas oportunidades, como pensam os chineses, estejamos certos que embora a transição seja arriscada, dolorosa para muitos, ainda assim devemos nos concentrar e saber que isto é a vida, cheia de desafios vertiginosos e estimulantes! Todos os problemas são passíveis de solução!
é algo normal, é algo que devemos encarar com seriedade e calma! e irmos em frente com muita determinação! muita força! passos firmes e fortes! para amadurecermos é preciso passarmos por muitas atribulações, muitas transformações, e se esta nossa crise educacional junta-se com a crise econômica do país, as transformações das pessoas se dará com mais rapidez, e aí quem sabe tudo possa resolver-se mais rápido!

Nadia Stabile - 14/02/09

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Melô da Adaptação

Esta música é dedicada a todos os educadores que estão lidando com a delicada fase da adaptação nas escolas de educação infantil. Para ser tocada toda vez que um pimpolho estiver esgoelando no pescoço da ansiosa mamãe.

Abraços e uma semana bem humorada para todos!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A MINHA INFÂNCIA - ESCOLAS NOS PARQUES!!

desde que nasci,até fazer 8 anos,
morei numa casa com grande quintal,
árvores, plantas de muitos tipos!
a mangueira minha amiga,teimava em não dar mangas!
mas mesmo assim sempre gostei dela,
talvez meus pais não soubessem tratá-la!
mas o quintal era a minha vida!
plantinhas picadinhas viravam sopinha para as bonecas,
tatus bolinhas foram confundidos com balinhas pela minha irmã no passado!
a terra era fundamental pra sopinha ficar no ponto!
um urinol velho de ágata,furado virava fonte pendurado na árvore!
e as peças de ferro fundido das máquinas que meu pai fabricava,
viravam laguinhos enferrujados maravilhosos pra fazerem meus barquinhos navegarem!
meu pai tinha sua pequena indústria mecânica do lado de casa,mas o quintal era comum!
aventuras dentro da mecânica...era outra coisa muito divertida!
eu não brincava na rua, mas aprontava mil coisas no quintal de terra com meus primos!

depois de mudar de lá, na segunda casa que morei quando tinha quase 10 anos,
não me conformava com a falta de terra e das plantas! até tínhamos um quintal meio grande! mas revestido com cerâmica e só tínhamos uns canteiros!
mas na esquina da rua havia uma pracinha ainda não ajardinada,
ia até lá e apanhava saibro,um tipo de barro argiloso,
fazia cabeças de fantoches, depois fazia a roupinha e então encenava peças para as amigas na garagem da vizinha!
hoje, sinto muita falta da terra! das plantas, e sei que foram elas que me fizeram uma criança feliz e saudável!
na pré escola o que mais marcou foram as idas aos jardins da escola, onde levávamos um regadorzinho pra aguar as plantas!

escrevi isto pra dizer que crianças e natureza não podem nunca se separar!
as crianças precisam da natureza! só a natureza pode libertar a alma das crianças!
concordo totalmente com o Beto Samú (colagem de postagem anterior) e com Thoreau!!
talvez se os governos resolvessem construir menos prédios...
fazer mais parques....e as aulas fossem dadas nos parques!!!
quem sabe fosse uma grande saída pra nossa educação tão ruim!
ESCOLAS NOS PARQUES!

Nadia Stabile - 06/02/09

Dicas para um retorno às aulas mais consciente.


Prometi publicar algumas sugestões de atitudes mais limpas e conscientes para a volta às aulas. Esta lista é apenas um princípio. Idéias que ajudem a ampliá-la serão superbenvindas (é assim na nova ortografia? Cruzes!). Este texto tem a colaboração da Silvia Schiros.

1. Bazares de troca ou venda de uniformes usados. A idéia, comum na Inglaterra, é montar um local na própria escola, onde os pais podem comprar ou trocar uniformes usados, mochilas, lancheiras e livros didáticos e paradidáticos em bom estado. Pais e escola decidem o que fazer com o dinheiro arrecadado. Pode-se também incluir a venda de roupas usadas (criança perde roupa novinha), brinquedos, jogos e material escolar.

2. Estímulo à carona. Incentivar os pais a trocarem roteiros e contatos de carona. Facilitar esta troca através de uma lista onde os pais interessados colocam roteiro e contato. É uma medida simples que reduz o número de carros na rua, poluentes e pais estressados. (Atenção escolas: pais menos estressados dão menos trabalho. Invistam nisso!).

3. Potão para troca de lanches. Uma gamela onde as crianças colocam os lanches que não vão comer, para que outro interessado (aluno ou funcionário) coma. Uma forma de compartilhar e reduzir as sobras.

4. Compostagem para as sobras de lanche. Feita pelas próprias crianças e que depois servirá de adubo para as árvores, horta e jardim da escola. Se houver excesso, pode ser doado para os pais ou entidades.

5. Lancheira sem embalagens. Opte por frutas, lanches e sucos caseiros, embalados em potes plásticos retornáveis (o bom e velho "tapuér") e em garrafinhas térmicas. Se precisar enviar um alimento industrializado e a escola do seu filho não tem um programa sério de reciclagem, tire-o da embalagem, mande no pote plástico e encaminhe você mesma a embalagem para a reciclagem. Dica: se você quiser sugestões de como montar lancheira saudável, entre no blog da Pat Feldman "Crianças na Cozinha".

6. Duas (ou mais) lixeiras em TODOS os ambientes. Uma para o lixo útil, outra para o lixo comum e, nos locais onde as crianças e profissionais se alimentam, uma terceira para as sobras de alimentos que irão para a compostagem.

Observe que, em várias escolas, a reciclagem faz parte da grade curricular, mas na prática ela não funciona. As lixeiras de reciclagem são normalmente colocadas em apenas um ou dois pontos do páteo, mas ninguém pode esperar que uma criança (ou adulto) atravesse toda a escola, com uma embalagem vazia de suco na mão, em busca da lixeira correta. Descartar o lixo útil deve ser tão fácil como descartar o lixo comum. Quando as lixeiras estão posicionadas e sinalizadas em todos os ambientes, a seleção é feita automaticamente. Depois é só recolher e encaminhar para os programas de reciclagem locais, cooperativas de catadores ou para a compostagem. Esta é uma forma muito simples e imediata de reduzir significamente a quantidade de lixo produzida.

7. Reutilização do material escolar. Muito material que sobra ainda pode ser reutilizado. Lápis de cor, estojos, borrachas, marcadores de texto, pastas, fichários, apontadores, réguas, mochilas e lancheiras muitas vezes voltam em boas condições, bastando uma limpeza. Outra coisa que tenho reaproveitado são os cadernos que voltam com menos da metade das páginas preenchidas. Arranco as usadas, crio com meus filhos uma nova capa com imagens recortadas de revistas ou da internet e ele retorna novinho pra mais um ano de uso.

8. Olho vivo na cantina. As cantinas não devem ser apenas saudáveis, evitando comida porcaria, frituras e refris. Deve-se também buscar a redução de embalagens descartáveis, oferecendo frutas, sucos feitos na hora servidos em copos retornáveis, lanches caseiros, fatias de bolos, tortas, tapiocas fresquinhas etc. Quanto menos alimentos industrializados, melhor para a saúde das crianças e do planeta. E é claro, tem que ter três lixeiras bem pertinho, para as crianças descartarem o lixo reciclável, os restos de alimentos e o lixo comum.

9. Reutilização de livros. Antes de sair comprando qualquer livro, tente consegui-lo usado. Uma boa maneira é consultar os pais dos alunos que fizeram a mesma série no ano anterior e a escola pode facilitar este contato. Outra forma é procurar em sebos. O site Estante Virtual reune mais de mil sebos por todo o país. O processo de compra é simples e os preços muito mais baratos que nas livrarias. Sempre vale uma consulta.

10. Banir os descartáveis do dia-a-dia. Copos, xícaras reutilizáveis e squeezes (eta palavra metida para garrafinha) são funcionais e evitam uma montanha de lixo. Podem ser lavados na escola ou devolvidos diariamente na mochila. O bom e velho bebedouro também funciona, mesmo para quem esqueceu o copo. Nas festinhas escolares, os pais devem ser estimulados (leia-se educados) a enviar utensílios retornáveis. Ou a própria escola pode disponibilizar tais objetos, bastando os pais enviarem os alimentos e bebidas (de preferência, sucos que serão servidos em jarras).

11. Uso inteligente de papel . Incentivar a comunicação e a cobranca eletrônica. Imprimir relatórios, contratos e apostilas utilizando a frente e o verso das folhas. Usar papel reciclado sempre que possível. Educar as crianças para preencherem toda a folha, frente e verso, antes de iniciar uma página nova.

No site da Sus School, há uma página interativa divertida e com dicas maravilhosas para uma escola sustentável. O texto está em inglês.

Mande sua dica e ajude a ampliar esta lista. E que este retorno às aulas seja um período de muito aprendizado. Para os alunos, pais e educadores.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Linguagem e leitura




Foi no século XX, mais exatamente a partir de 1980, que a visão de linguagem como um fenômeno social da interação verbal abriu um horizonte heurístico amplo para discutir questões como a da identidade, da subjetividade, da intersubjetividade, da alteridade e das práticas discursivas em geral, envolvendo pensadores como Lev Vygotsky na teoria da cognição; Jacques Lacan na psicanálise; várias correntes filosóficas como o existencialismo.
Vygotsky (1984) teve grande importância para a educação ao enfatizar a origem social da linguagem e do pensamento, sendo o individual e o social elementos mutuamente constitutivos de um todo. Para ele, são as funções psicológicas superiores que se constituem em transformações internalizadas de padrões sociais de interação interpessoal.
Também foi no século XX que se delineou a Análise do Discurso, já citada anteriormente, tendo como espaço qualquer seqüência de enunciados que oferece lugar à interpretação. Assim como todo enunciado é suscetível de tornar-se outro, diferente de si mesmo, há também o outro nas sociedades e na história, relação que abre a possibilidade de interpretação, já que essas ligações promovem memórias e redes de significantes.
Nesse sentido, para a Análise do Discurso é preciso determinar o lugar e o momento da interpretação, em relação aos da descrição. Já toda descrição abre sobre a interpretação, ou seja, tem o discurso-outro como espaço virtual de leitura. Assim, o discurso incorporado a um “corpus” está arriscado a um apagamento do acontecimento, através de sua absorção em uma sobreinterpretação antecipadora.
Bakhtin mostra-nos a dimensão das relações sociointeracionais para o sujeito ao dizer:


Viver significa tomar parte no diálogo: fazer perguntas, dar respostas, dar atenção, responder, estar de acordo e assim por diante. Desse diálogo uma pessoa participa integralmente e no correr de toda sua vida: com seus olhos, lábios, mãos, alma, espírito, com seu corpo todo, e com todos os seus feitos. Ela investe seu ser inteiro no discurso e esse discurso penetra no tecido dialógico da vida humana, o simpósio universal (BAKHTIN, 1997, P. 293).


De acordo com Martins (1982), na tentativa de entender o mundo, atribuindo sentido ao que nos cerca, damos os primeiros passos na aprendizagem da leitura. Somos capazes de entender o processo da leitura, com algumas orientações, necessitando, além do conhecimento lingüístico, de todo um sistema de relações interpessoais e entre as várias áreas do conhecimento e da expressão do homem e das suas circunstâncias de vida (MARTINS, 1982, pp. 13 e 14).
A autora acrescenta que existe um leitor anteriormente à descoberta do significado da palavra escrita, situação decorrente de suas experiências de vida e do mundo social e cultural que o rodeia. Essa leitura, porém, pode encontrar inúmeros obstáculos nas situações em que as pessoas têm pouco convívio humano ou relações sociais restritas, bem como condições de sobrevivência precárias.
Nesse contexto, assume papel preponderante a memória humana, tanto para a vida quanto para a leitura, quando de fato carrega a lembrança de algo significativo, e a valorização da palavra escrita (signo arbitrário) como instrumento de comunicação e registro da história humana em um sentido democrático, não como instrumento de poder, de discriminação. Assim, é possível perceber que o ato de ler está ligado, de forma absoluta, a condições subjetivas e objetivas do leitor, ou seja, qualquer enunciado será compreendido nos aspectos social, político e cultural em que ele acontece.
Sobre o processo da leitura é importante observar que este se dá em circunstâncias dialógicas entre leitor e objeto, na intermediação com outros leitores e de acordo com um contexto. O processo da leitura é de tal forma complexo, que a ele necessitamos conferir uma explanação, sob pena de incorrermos em um reducionismo ao considerá-lo dependente unicamente do leitor ou do professor ou da escola.
Para Foucambert (1994):


Aprender a ler é entrar na funcionalidade de um modo de comunicação escrita; é entrar, portanto, nas razões e redes dessa comunicação. As aquisições técnicas são conseqüências dessa entrada, não sua causa; não podem, pois, ser separadas dela. Para aprender a ler, é preciso estar integrado a um grupo heterogêneo que realmente utiliza a escrita (ou seja, aprender a ler lendo): a leitura é uma função social (FOUCAMBERT, 1994, p.70).

Joyce Sanchotene

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