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quarta-feira, 17 de junho de 2009

Web 2.0, software livre e a exploração do trabalho gratuito



Disposable, originalmente publicado por Crow v.

Para o filósofo italiano Antonio Negri (2003, p. 94) a “originalidade do capitalismo cognitivo consiste em captar, em uma atividade social generalizada, os elementos inovadores que produzem valor”. Fundamentada na obra “Grundrisse der Kritik der Politischen Ökonomie” de Marx, a proposição de Negri é que as recentes transformações na força produtiva determinam que o trabalho se torne uma atividade cognitiva, tendo como figura central, a ascensão do “trabalho imaterial” concebido como o “conjunto das atividades intelectuais, comunicativas, afetivas, expressas pelos sujeitos e pelos movimentos sociais”.

Na esteira do que foi preconizado por Negri e enfocando críticamente as atividades dos indivíduos na Internet, Tiziana Terranova (2000) elabora uma reflexão baseada na idéia do “free labor” (trabalho gratuito) em que os indivíduos abraçam prazeirosamente atividades produtivas sem remuneração ao mesmo tempo que são explorados economicamente. Neste sentido, podemos entender, por exemplo, sites como Youtube e Second Life apenas como grandes repositórios, sendo que todo seu valor consiste numa construção realizada por contribuições dos usuários. Nesta categoria se encaixariam inclusive o desenvolvimento voluntário de softwares open-source, ao se constatar que este tipo de trabalho é cada vez mais executado em harmonia com grandes projetos de empresas com um estrutura patronal como no caso da IBM.

Trebor Scholz sugere a existência de uma ideologia de participação Web 2.0, se tornando uma ideologia do trabalho imaterial gratuito. Scholz remete ao crowdsourcing, uma adaptação do outsourcing que abrange entre suas modalidades a terceirização. Utilizando este recurso, uma empresa pode transferir uma atividade interna para um grupo grande de pessoas executá-la externamente a um custo inferior. No contexto da chamada Web 2.0, em contrapartida de uma suposta gratuidade de serviços oferecidos na Internet, as pessoas revelam informações sobre seus gostos e preferências e agregam valor a estes serviços. Entretanto, em oposição a esta visão, outros pensadores como Tapscott e Williams (2007) em seu trabalho “Wikinomics”, entendem estas práticas como uma dinâmica de trocas vantajosas para ambas as partes, constituindo novos e interessantes paradigmas nos modelos de negócio.

Discutir modelos de negócio de plataformas de serviços na Internet implica em entender as diferentes estratégias de geração de renda para estes serviços. Entre outras, estas podem ser: a apropriação da criatividade do usuário, a venda da atenção para anunciantes, a montagem de valiosos bancos de dados com as informações sobre preferências e gostos, apoios financeiros por meio de incentivos fiscais ou doações.

A relação da “cibernética, trabalho e capital” tratados por Donna Haraway (2000) em seu “Manifesto Ciborgue” é uma das principais referências de Terranova (2000) ao tratar o free labor (apesar da antipatia de Haraway a Marx). De fato ao analisar este tema, bem como os modelos de negócio é adequado lembrar o “jogo mortal” para que Haraway alerta quanto “à mudança: de uma sociedade industrial, orgânica, para um sistema polimorfo informacional; de uma situação de “só trabalho” para uma situação de ”só lazer” que significa “a transição das velhas e confortáveis dominações hierárquicas para as novas e assustadoras redes” que ela define como “informática da dominação” (2000, p.65).

Referências

HARAWAY, Donna. Manifesto ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (org). Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. Existe um tradução colaborativa online desta obra no interressante projeto Deriva

Marx, Grundrisse der Kritik der politischen Ökonomie [Esboços de uma crítica da economia política], Berlim 1953

NEGRI, Antonio. Cinco lições sobre império. Tradução: Alba Olmi. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.

SCHOLZ, Trebor. Market Ideology and the Myths of Web 2.0. First Monday, Volume 13, Numero 3.

TAPSCOTT, Don e WILLIAMS, Anthony. Wikinomics - Como a colaboração em massa pode mudar seu negócio. Tradução: Marcello Lino. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,2007.

TERRANOVA, Tiziana. Free Labor: Producing Culture for the Digital Economy, Social Text. vol. 18, número 2, páginas 33-57. 2000

Textos relacionados


FONTE: http://arlifrancis.org/blog/2009/06/02/web-20-software-livre-e-a-exploracao-do-trabalho-gratuito/

sábado, 13 de junho de 2009

Amadeus entra no Portal do Software Público Brasileiro. Alex Sandro, Coordenador do Projeto e Professor na gloriosa UFPE

DIRETO da FONTE DO ADMINISTRADOR DO SOFTWARE PÚBICO.GOV.BR - GOVERNO FEDERAL UM PAÍS DE TODOS.
http://www.softwarepublico.gov.br/ver-comunidade?community_id=9677539


Amadeus entra no Portal do Software Público Brasileiro

Depois da atividade de lançamento oficial do software AMADEUS, realizada no dia 12 de março de 2009, em ato organizado no auditório do Centro de Informática, da Universidade Federal de Pernambuco-UFPE, a solução ingressa no Portal do Software Público Brasileiro. Os usuários do Portal podem acessar a solução clicando direto no endereço

O projeto, todo desenvolvido em Pernambuco, é coordenado pelo Centro de Informática (CIn), da UFPE, e tem como principal característica ser um sistema de gestão de aprendizagem, na ótica de atender as demandas mais atuais para as atividades de Ensino à Distância (EAD).


A expectativa é de que, com o apoio do Portal SPB, o Amadeus - que desde seu lançamento, no ano passado, já foi tema de pelo menos 14 dissertações de Mestrado e duas de Doutorado - conquiste o País. A plataforma entra em uso ainda no mês de março no SENAI do Rio Grande do Norte e na Escola Agrotécnica Federal de Belo Jardim (e-TEC Brasil). Também já há negociação em andamento com a Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Valparaíso, no Chile.


Detalhes do Projeto (*) - A força do Amadeus está justamente em oferecer um sistema de gestão da aprendizagem de segunda geração, baseado no conceito de blended learning (que usa diversas plataformas: Internet, desktop, celulares, PDAs de forma integrada e consistente). Só para citar um exemplo, o aluno pode receber mensagens no celular sempre que o professor colocar algum novo material. Os desenvolvedores prometem ainda incluir o padrão da TV digital no sistema.


(*) descrição feita ao Diário de Pernambuco no dia 11/03 pelo coordenador do projeto Alex Sandro (professor da UFPE).


Notícias das Comunidades:

CACIC: Nova versão [2.4.0RC2] disponibilizada

GINGA: o Live CD agora disponível!

i-EDUCAR: Nova versão do i-Educar

Notícias do Portal:

Software Banco de Talentos será Lançado na Segunda-feira
http://www.softwarepublico.gov.br/lancamento-banco-de-talentos

FONTE: http://oclaro.blogspot.com
(Blog do Fernando Claro)
*20 de Março de 2009

sábado, 14 de março de 2009

Hackers, monopólios e instituições panópticas - Sérgio Amadeu da Silveira

Poder, governança e vigilância na Internet

Um excelente artigo sobre disputas de poder, monopólio, vigilância e governança na Internet, apresentado por Sérgio Amadeu no congresso da Intercom, em Setembro de 2006.

Hackers, monopólios e instituições panópticas

Por Sérgio Amadeu da Silveira

Introdução: Velhos Direitos, Novas Violações e a Ambiguidade das Redes.

A comunicação mediada por computador e a digitalização intensa de grande parte dos conteúdos de expressão – textos, sons ou imagens — ampliaram as possibilidades das grandes organizações – Estados, companhias transnacionais e redes criminosas – de observar e rastrear o comportamento e o cotidiano dos cidadãos. A comprovação empírica dessa afirmação pode ser encontrada exatamente nos Estados Unidos, um dos países com grande tradição na defesa da privacidade e, ao mesmo tempo, a nação com o maior número de computadores e internautas. Em Dezembro de 2005, o jornal The New York Times divulgou que presidente George W. Bush teria autorizado o NSA (National Secutity Agency) a realizar milhares de escutas telefônicas e scaneamento de e-mails sem a prévia autorização judicial. O governo alega que a Lei USA Patriot, aprovada no fim de 2001, permite a espionagem de pessoas sem consulta ao Judiciário, pois isto seria indispensável para um combate ágil e eficaz ao terrorismo.

No mês de maio de 2006, o site de buscas Google, recusou-se a entregar ao Departamento de Justiça norte-americano uma lista contendo palavras e sites pesquisados por todos usuários durante uma determinada semana. O governo já vinha utilizando as bibliotecas para captar informações sobre o que as pessoas consultam. A Lei USA Patriot permite tais ações de rastreamento. É notável que antes mesmo dos ataques de 11 de Setembro, o FBI (polícia federal norte-americana) já scaneava e-mails que transitavam pelos backbones (redes de alta velocidade) e seus roteadores instalados nos Estados Unidos. Esta prática de vigilância ocorria a partir de um sistema chamado Carnivore que permitia ler todos os e-mails e copiar aqueles que continham determinadas frases e palavras-chaves. É importante ressaltar que mesmo denunciado no parlamento por organizações da sociedade civil, tais como a EFF (Eletronic Frontier Foundation) e EPIC (Eletronic Privacy Information Center), o Carnivore violou e-mails de cidadãos americanos e também de estrangeiros. Todas as mensagens “suspeitas” que tiveram o território norte-americano como rota de passagem foram violadas.

Talvez muito mais do que os Estados, algumas poucas corporações estão buscando legitimar a alteração no imaginário social sobre o espaço da privacidade em um mundo inseguro. Empresas que controlam algoritmos embarcados nos códigos de programação computacional, amplamente empregados como intermediários da comunicação contemporânea, tais como sistemas operacionais, estão realizando intrusões em computadores pessoais sem que nenhuma reação revoltosa seja noticiada. A tecnologia DRM (Digital Rights Management) usada para tentar impedir o uso não autorizado, denominado “pirata”, de softwares, games, vídeos, filmes e músicas, está permitindo que em nome da defesa do copyright seja destruído o direito a intimidade e a privacidade.

Além disso, o caráter transnacional da rede de comunicação mediada por computador, coloca o problema sobre a definição das regras básicas de operação da rede que são definidas por protocolos de comunicação, padrões e pela estrutura dos nomes de domínios. Emerge a questão da governança da Internet que envolve a disputa entre cinco grandes interesses não necessariamente contrapostos: dos comitês técnicos que definiram até agora os protocolos da Internet; dos Estados nacionais; das corporações de Tecnologia de Informação; da sociedade civil mundial e das várias comunidades hacker; e o interesse do Estado norte-americano. Uma série de decisões aparentemente técnicas que afetarão a privacidade e o anonimato dos internautas estão sendo debatidas e poderão ser adotadas sem que os cidadãos do planeta, que utilizam a Internet, tenham a mínima possibilidade de debatê-las ou mesmo de recusá-las. Se for definido que o protocolo de comunicação básico entre as milhares de redes deverá ter como o padrão o fim do anonimato na comunicação, isto afetará completamente a forma como conhecemos a Internet hoje.

Estes exemplos reforçam a necessidade de observarmos mais atentamente a relação entre comunicação, tecnologia e mudança social. Também indicam que a comunicação mediada por computador, por seu caráter transnacional, afeta cidadania e exige a reconfiguração dos direitos para uma vida coletiva no ciberespaço. Sem dúvida, a rede mundial de computadores tem servido às forças democratizantes para compartilhar não somente mensagens e bens simbólicos, mas também conhecimentos tecnológicos que estão gerando as possibilidades distributivas de riqueza e poder extremamente promissoras. Exatamente nesse contexto, que um conjunto de mega-corporações atuam para manter e ampliar em uma sociedade informacional os poderes que detinham no capitalismo industrial. Para tanto, precisam conter a hiper-comunicação pública e torná-la comunicação privadamente controlada, substituindo a ideia de uma cultura livre pela cultura da submissão ou do licenciamento.

Algumas Considerações Sobre a Noção de Cidadania.

John Perry Barlow, um dos fundadores da Eletronic Frontier Foundation, escreveu a A declaration of the Independence of Cyberspace, em fevereiro de 1996, como reação ao Ato de Decência nas Comunicações, uma lei que visava o controle de conteúdos na Internet, proposta pela administração do presidente norte-americano Bill Clinton. Barlow foi enfático: “Governments of the Industrial World, you weary giants of flesh and steel, I come from Cyberspace, the new home of Mind. On behalf of the future, I ask you of the past to leave us alone.” Apesar do seu apelo, dez anos depois é preciso constatar que ele não foi atendido, nem pelos Estados nacionais, nem pelas mega corporações. Isto porque o ciberespaço não existe descolado do mundo material. A Internet depende da infra-estrutura lógica e física que está sobre o comando de pessoas e empresas que habitam os territórios controlados pelos velhos gigantes estatais, os Leviatãs.

Sem dúvida alguma, a Internet representa uma mudança de paradigma das comunicações e é vista por uma série de teóricos como a maior expressão da chamada revolução das tecnologias da informação (CASTELLS). A supremacia da comunicação baseada na difusão, a partir de um ponto, está sendo substituída pela comunicação em rede. A Internet assegura a possibilidade de qualquer cidadão disputar a atenção da rede para seus sites, blogs ou mensagens. A net é um meio técnico com características intrínsecas que permitem a democratização da criação de conteúdos. Considerando ainda que a Internet é uma rede transnacional baseada no fluxo de dados, que transitam sobre um mesmo conjunto de protocolos e regras de codificação e decodificação de códigos, fica evidente que os Estados nacionais não teriam o controle total do fluxo de conteúdos, como ocorre no caso da TV e do rádio. O fluxo da Internet pode originar-se fora do território nacional. A lei nacional tem enorme dificuldade de ser executada se um provedor de conteúdo que hospeda um site de pedofilia encontrar-se hospedado em um país distante.

Todavia, existem possibilidades de controle de conteúdos e de aplicações que são realizadas por meio da própria tecnologia. É preciso relativizar a idéia de que os Estados não possuem formas de bloquear e até mesmo controlar determinados fluxos da Internet. O governo autoritário da China filtra conteúdos e impede o acesso a determinados sites porque controla os dois backbones por onde transitam todos os dados que entram e saem do país. Desconhecer estas possibilidades de controle significa abandonar a jornada da humanidade na luta pela legitimação do direito à livre comunicação como um dos direitos fundamentais do homem e do cidadão. É olhar somente para as promessas democratizantes da comunicação mediada por computador e esquecer de sua face panóptica. É desconsiderar a gravidade do fato do Google organizar buscas censuradas para poder ter acesso ao mercado chinês, prática já realizada pelo Yahoo e MSN.

Donna Haraway, em sua brilhante reflexão feminista, qualificou o momento em que vivemos como a “transição das velhas e confortáveis dominações hierárquicas para as novas e assutadoras redes (…) de ‘informática de dominação’”. (HARAWAY, p.65) As redes possuem uma linguagem comum entre as máquinas e estas são intermediários indispensáveis para as linguagens naturais humanas, em um ambiente de comunicação via máquinas de processar dados. O jurista Lawrence Lessig já havia alertado, no final dos anos 1990, que no ciberespaço o código tem o mesmo papel de uma legislação. (LESSIG). Exatamente pelos intermediários tecnológicos que Estados autoritários e neo-autoritários (falo dos Estados Unidos), bem como gigantescas empresas imperiais do capitalismo informacional tentam controlar os cidadãos.

Weissberg denunciou a contradição existente entre o desejo de uma comunicação cada vez mais transparente e desintermediada, a partir do dinamismo e do potencial interativo da Internet, e a realidade de sua operação. Por isso, afirmou que “o objetivo de supressão dos intermediários se transforma, conforme seu próprio movimento, em criação de uma nova camada de mecanismos mediadores que automatizam a mediação.”(p.123) Mas como fica a noção de cidadão em um mundo cada vez mais transnacionalizado e com a comunicação mediada por padrões e códigos (softwares) que são apresentados por instâncias definidas como técnicas e distantes dos mecanismos de controle democrático?

Aqui é necessário enfrentar pelo menos duas questões: primeiro, a da evolução da cidadania; segundo, a questão do papel da comunicação e da tecnologia para a mudança ou permanência das relações sociais.

Segundo vários autores, podemos definir “cidadania” como o direito a ter direitos. T. H. Marshall observando a evolução do conceito na Inglaterra, defendeu existir direitos de primeira e segunda geração. Para Marshall, primeiro teriam surgido os direitos civis e depois os políticos (séculos XVIII e XIX). Uma segunda geração de direitos surgiram no século XX e conformariam os chamados direitos sociais. Apesar de acusada de etnocêntrica e linear, a proposição de Marshall passou a ser referência para a observação da mutabilidade histórica da cidadania. Nesse sentido, alguns teóricos observaram o surgimento na segunda metade do século XX dos direitos de terceira geração, ou seja, direitos de grupos, de minorias e etnias, direitos difusos que ganham força em todo o mundo. Questões como o direito ao meio ambiente, o feminismo e a defesa do consumidor, são incorporados em várias legislações e discursos políticos. (LISZT)

A comunicação transnacional mediada por computador coloca a necessidade de reivindicar novos direitos? Como reivindicar novos direitos em um ambiente transnacional? Mas não seria um exagero exigir deliberação democrática e debate público sobre as funcionalidades de sistemas, códigos e protocolos considerados técnicos pelas indústrias de TI e pelo senso comum?

Vamos verificar um caso concreto que interferirá no cotidiano de todas as pessoas do planeta que utilizam e cada vez mais dependem da rede mundial de computadores. O protocolo de comunicação da Internet chamado IP (Internet Protocol) permite o endereçamento de dados entre todas as redes que a compõem. A versão deste protocolo que permitiu a expansão veloz da rede por todo o planeta é denominada de IPv4 e está sendo substituída por uma nova versão, o IPv6. Entre os vários motivos de criar uma nova versão estão as razões de segurança. O IPv6 permite que os cabeçalhos dos pacotes de dados sejam assinados digitalmente por chaves criptográficas. Estas chaves servem para identificar o autor das mensagens. Pois bem, se for definido que o padrão de comunicação entre redes será a identificação criptográfica de todos os pacotes, então a Internet terá suprimido o anonimato na comunicação. Suponha que boa parte ou a maioria dos cidadãos dos vaŕios países do mundo sejam contra o fim do anonimato na Internet. Como influenciarão esta decisão? A quem recorrer? Qual será o fórum de decisão? Ou continuaremos a acreditar que estas decisões são meramente técnicas?

Guarinello coloca-nos um ponto extremamente relevante: “Há, certamente, na história, comunidades sem cidadania, mas só há cidadania efetiva no seio de uma comunidade concreta, que pode ser definida de diferentes maneiras, mas que é sempre um espaço privilegiado para a ação coletiva e para a construção de projetos para o futuro.”(p.46) O problema é que a Internet por ser transnacional não se enquadra facilmente no terreno onde a cidadania tem conseguido avanços, ou seja, nos espaços nacionais.

Entretanto, Liszt Vieira aponta que “recentes concepções mais democráticas pretendem dissociar completamente a cidadania da nacionalidade. (…) Por esta concepção, seria possível pertencer a uma comunidade política e ter participação independente da questão de nacionalidade.”(p.32) Mark Poster avança e questiona: “podem os novos meios de comunicação promover a construção de novas formas políticas não amarradas a poderes territoriais e históricos? Quais são as características dos novos meios de comunicação que promovem novas relações políticas e novos sujeitos políticos?”(p.328)

Talvez uma boa linha de investigação tenha sido lançada por Benedict Anderson quando afirmou que a nação é uma comunidade imaginada. Os meios de comunicação foram fundamentais para a constituição da idéia moderna de nação. A partir dessa perspectiva, Gustavo Lins Ribeiro defende que do mesmo modo que “Benedict Anderson mostrou, retrospectivamente, a importância do capitalismo literário para a criação de uma comunidade imaginada que evoluiria para tornar-se uma nação. Sugiro que o capitalismo eletrônico-informático é o ambiente necessário para o desenvolvimento de uma transnação.” (p.469)

A emergência de uma “comunidade transnacionalmente imaginada”, nos dizeres de Ribeiro, exige o aparecimento de lealdades superiores a dos Estados Nacionais, forjadas a partir do ciberespaço. Nesse contexto, Mark Poster vê a possibilidade de surgimento de uma espécie de cidadão planetário: “o net-cidadão pode ser a figura formativa num novo tipo de relação política, que partilha a lealdade à nação com a lealdade à Internet e aos espaços políticos planetários que ela inaugura.”(p.329)

Comunicação, Tecnologia e o Mito da Neutralidade.

O problema da cidadania, em um cenário de globalização e transnacionalidade, coloca-nos diante da necessidade de enfrentarmos a discussão do papel das comunicações e das tecnologias da informação nos processos de mudança e permanência das relações sociais. Dominique Wolton escreveu:

“Se uma tecnologia da comunicação desempenha o papel essencial, é porque simboliza ou catalisa, uma ruptura radical da ordem cultural ocorrendo simultaneamente na sociedade. Não foi a imprensa que, por si, transformou a Europa, mas sim a ligação entre esta e o profundo movimento que subverteu o poder da Igreja Católica.” (WOLTON, 2003, p.32)

Para Wolton, as tecnologias de informação e os meios de comunicação não criam revoluções, ao contrário, são utilizados pelos processos revolucionários ou mudancistas. Sem dúvida, não foi a revolução industrial que criou o capitalismo, mas sem dúvida alguma, o domínio da tecnologia da máquina assegurou a primazia sobre o processo de apropriação da riqueza produzida e, este domínio econômico, gerou mais poder sobre a sociedade. Os capitalistas não poderiam impor suas relações de produção se não incorporassem a forma mais produtiva e avançada de geração de bens materiais.

Wolton vê nas promessas em torno das tecnologias da informação as mesmas ilusões que geraram prognósticos otimistas para os impactos da TV, do Rádio, do satélite, do cabo, no convívio humano. O teórico francês não percebeu que a TV e todas as formas do paradigma de difusão não têm nenhuma relação com as tecnologias da informação. Estas são mais do que formas de comunicação intensa e múltipla, são também tecnologias da inteligência (LÉVY) que ampliam as possibilidades de transformar informações em conhecimento. São tecnologias que reivindicam um comportamento interativo e se baseiam na proliferação da cópia. Permitem fundir sons a imagens e estas a textos, sendo multidirecionais e capazes de armazenar bilhões de dígitos na mesma máquina receptora e transmissora de mensagens.

Ao afirmar que “a técnica não é suficiente para mudar a comunicação na sociedade”, Wolton pode estar desconsiderando dois importantes elementos: um histórico e outro teórico. Primeiro, a tecnologia da informação nasceu no âmbito do cálculo e do processamento de dados. Somente depois que o computador tornou-se uma ferramenta de comunicação. De um projeto militar no cenário da Guerra Fria, o paradigma da computação em rede surgiu e foi reconfigurado inúmeras vezes por cientistas, hackers e pensadores da contracultura californiana (CASTELLS). Assim surgiu a Internet real, tal como a conhecemos hoje. É inegável que sua expansão está mudando a face das comunicações no planeta. E a comunicação em rede é completamente distinta do broadcasting.

Segundo, talvez a insistência de Wolton em afirmar que a tecnologia não muda a sociedade guarde a concepção de que as tecnologias são socialmente neutras. Técnicas quando inventadas sempre guardam decisões de quem as criou. Muitas delas podem ser reconfiguradas, outras têm o uso ambíguo, como a Internet, mas nunca são criadas sem objetivos, de modo neutro. É exatamente esta a questão que aqui discuto. Decisões sobre a arquitetura das redes e seus protocolos estão sendo tomadas por engenheiros, mas têm grande impacto social e podem limitar ou ampliar a liberdade da comunicação entre as pessoas. São decisões de grande impacto público, portanto, adquirem relevância política, mesmo que tenham sido tomadas por comitês técnicos.

Considerar que determinadas tecnologias guardam potenciais revolucionários, não significa também assumir a proposta de McLuhan. Mattelart criticou a supremacia que McLuhan dava ao meio. Sem dúvida, o meio condiciona, mas dificilmente poderá determinar os conteúdos. São visíveis os exageros de McLuhan quando advogou que “o grande abalo que rompeu o corpo da comunicação e a desmembrou teve lugar na Idade Média. Se a Igreja perdeu posição nessa época, se ela aí perdeu sua unidade mística, foi por causa da tecnologia.”(MATTELART, p.103) Por outro lado, é necessário reconhecer que a invenção de Gutenberg viabilizava a proposta de doutrinadores da Reforma que queriam romper com os intermediários entre o homem e Deus, entre a portador da fé e os escritos sagrados. A impressão de tipos móveis “baniu o estilo de vida comum em favor de uma comunidade massiva onde cada indivíduo pode se tornar um leitor e onde a leitura se torna uma experiência privada.” (idem, p.103)

Em outro texto mais recente, Wolton parece reconhecer a magnitude e a complexidade da comunicação em rede e aponta um problema que indica a necessidade da deliberação pública sobre os caminhos da comunicação mediada por computador, principalmente, a Internet: “É no que o tema da sociedade da informação é perverso: ele homogeneiza tudo e faz desaparecer o homem por de trás dos fluxos de informação. Numa economia do signo, tudo é possível. Cabe então ao homem inventar seus próprios limites.”(WOLTON, 2004, p.155)

Conclusão: Concentração de Poder e Cultura Hacker

Carlos Afonso, um dos pioneiros da Internet no Brasil, ao comentar o debate sobre a governança da Internet na Cúpula Mundial da Sociedade da Informação, ocorrida em duas fases, Genebra, em 2003, e Túnis, em 2005, afirmou:

“Os equívocos de alguns participantes do debate global vão desde acreditar que o tráfego de conteúdo passa pelo sistema de servidores-raiz até pensar que as funções de governança da Internet como um todo deveriam estar sob a alçada da UIT (União Internacional das Telecomunicações). A ICANN também costuma ser apresentada como uma organização global, o que é verdade apenas numa pequena parte e, em termos legais, não o é de forma alguma. A ICANN está sujeita às leis federais dos Estados Unidos e às leis do estado da Califórnia, e o seu poder de governança da Internet está limitado por vários contratos e por um Memorando de Entendimento (ou MoU, na sigla em inglês) envolvendo o governo dos EUA, a ICANN e a principal operadora do sistema global de nomes de domínio, uma empresa privada chamada Verisign.” (AFONSO, p.11)

O que mais chama a atenção na crítica de Carlos Afonso não é a ignorância de alguns participantes, mas o grande poder do governo norte-americano sobre um dos órgãos técnicos que definem regras da comunicação em rede. Por outro lado, este poder não está apenas no contexto da governança da Internet, pois uma sociedade em rede ou informacional exige um conjunto de intermediários e de decisões técnicas de enorme impacto sócio-planetário.

A concentração de poder comunicacional na sociedade da informação poderá ser muito maior do que a ocorrida com a mídia de massas na sociedade industrial. No ano de 2002, mais de 90% dos computadores pessoais do mundo utilizavam o sistema operacional de uma única empresa norte-americana, a Microsoft. O sistema operacional é o principal programa de uma máquina de processar informações. Ele define como a máquina deve agir, como deve alocar a memória, que tipos de programas podem ou não podem ser instalados nela, entre outras funções. “Por dominar a linguagem básica dos computadores, esta empresa também passou a dominar o mercado de navegadores web (browser), uma vez que passou a vender o browser junto com seu sistema operacional, desbancando todos os outros existentes.”(SILVEIRA, p.157)

Mark Poster alerta-nos que a saída para a democratização da sociedade informacional está na construção de novas estruturas políticas fora do Estado-nação em colaboração com as máquinas.”(p. 322) Ou seja, é na formação de um movimento de opinião pública planetário, transnacional, no ciberespaço com consequências em todos os territórios, pois para Poster não há como criar processos decisórios mundiais. Poster acredita que “a nova ‘comunidade’ não será uma réplica de uma ágora, mas será mediada por máquinas de informação. Portanto, o exigido é uma doutrina dos direitos da interface homem/máquina.”(p.322)

Para construirmos a idéia de novos direitos de caráter planetário, será fundamental observarmos a cultura hacker que esteve presente desde o nascimento e em toda a expansão da comunicação baseada nas redes informacionais. A Internet evoluiu aberta, vencendo tentativas de apropriação privada de seus elementos principais, exatamente pela forte influência dos hackers em seus processos vitais. A cultura hacker também está escrevendo uma das mais contundentes críticas a opacidade dos códigos e ao bloqueio do fluxo de conhecimento tecnológico na sociedade da informação. Dela nasceram movimentos como software livre e fenômenos como a maior enciclopédia do mundo, a wikipedia.

Ao estudar a cultura hacker, o filósofo finlandês Pekka Himanen escreveu:

“A ética de trabalho dos hackers consiste em combinar paixão com liberdade, e foi essa a parte da ética dos hackers cuja influência foi sentida com maior intensidade.” (…) “um terceiro e crucial aspecto da ética dos hackers é a atitude dos hackers em relação às redes, ou seja, é a sua ética da rede, que é definida pelos valores da atividade e do cuidar. Atividade, nesse contexto, envolve a completa liberdade de expressão em ação, privacidade para proteger a criação de um estilo de vida individual, e desprezo pela passividade frente à procura pela paixão individual. Cuidar significa aqui a preocupação com o próximo como um fim em si mesmo e um desejo de libertar a sociedade virtual da mentalidade da sobrevivência que tão facilmente resulta de sua lógica.” (p.126)

Os hackers do movimento de software livre estão enfrentando as companhias que buscam monopolizar no planeta o controle dos intermediários da comunicação (softwares, códigos e protocolos da comunicação em rede). Estas companhias alegam que seus direitos de propriedade estão acima de todos os demais direitos, inclusive da liberdade de conhecer, do uso justo de uma obra protegida pelo copyright, do direito à privacidade, à segurança e ao anonimato. Enfim, estamos em uma novo terreno. Dele emanam a reivindicação de novos direitos, direitos de comunicação, de liberdade de expressão e da possibilidade democrática de tomar decisões em uma sociedade em rede, virtual ou ciberespacial. O debate mal começou.

Sérgio Amadeu da Silveira é doutor em ciência política e professor de pós-graduação da Faculdade Cásper Líbero.

FONTE: http://dalberto.wordpress.com/tag/software-livre/.

Blog do Sérgio Amadeu da Silveira : http://samadeu.blogspot.com/

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O QUE É SOFTWARE LIVRE ? DA WIKIPÉDIA

Ilustração freqüentemente usada como logo para o Projeto GNU

Software livre, segundo a definição criada pela Free Software Foundation é qualquer programa de computador que pode ser usado, copiado, estudado, modificado e redistribuído sem nenhuma restrição. A liberdade de tais diretrizes é central ao conceito, o qual se opõe ao conceito de software proprietário, mas não ao software que é vendido almejando lucro (software comercial). A maneira usual de distribuição de software livre é anexar a este uma licença de software livre, e tornar o código fonte do programa disponível.


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Índice

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[editar] Definição

Um software é considerado como livre quando atende aos quatro tipos de liberdade para os usuários do software definidas pela Free Software Foundation:

  • A liberdade para executar o programa, para qualquer propósito (liberdade nº 0);
  • A liberdade de estudar como o programa funciona, e adaptá-lo para as suas necessidades (liberdade nº 1). Acesso ao código-fonte é um pré-requisito para esta liberdade;
  • A liberdade de redistribuir cópias de modo que você possa ajudar ao seu próximo (liberdade nº 2);
  • A liberdade de aperfeiçoar o programa, e liberar os seus aperfeiçoamentos, de modo que toda a comunidade se beneficie (liberdade nº 3). Acesso ao código-fonte é um pré-requisito para esta liberdade;

A liberdade de executar o programa significa a liberdade para qualquer tipo de pessoa física ou jurídica utilizar o software em qualquer tipo de sistema computacional, para qualquer tipo de trabalho ou atividade, sem que seja necessário atender a alguma restrição imposta pelo fornecedor.

A liberdade de redistribuir deve incluir a possibilidade de se repassar os códigos-fonte bem como, quando possível, os arquivos binários gerados da compilação desses códigos, seja em sua versão original ou modificada. Não é necessária a autorização do autor ou do distribuidor do software para que ele possa ser redistribuído, já que as licenças de software livre assim o permitem.

Para que seja possível estudar ou modificar o software (para uso particular ou para distribuir) é necessário ter acesso ao código-fonte. Por isso a disponibilidade desses arquivos é pré-requisito para a liberdade do software. Cada licença determina como será feito o fornecimento do fonte para distribuições típicas, como é o caso de distribuições em mídia portátil somente com os códigos binários já finalizados (sem o fonte). No caso da licença GPL, a fonte deve ser disponibilizada em local de onde possa ser acessado, ou deve ser entregue ao usuário, se solicitado, sem custos adicionais (exceto transporte e mídia).

Para que essas liberdades sejam reais, elas devem ser irrevogáveis. Caso o desenvolvedor do software tenha o poder de revogar a licença, o software não é livre.

Tais liberdades não fazem referência aos custos envolvidos. É possível que um software-livre não seja gratuito. Quando gratuito, empresas podem explorá-lo comercialmente através do serviço envolvido (principalmente suporte).

A maioria dos softwares livres é licenciada através de uma licença de software livre, como a GNU GPL, a mais conhecida.

[editar] Software Livre e Software em Domínio Público

Software livre é diferente de software em domínio público. O primeiro, quando utilizado em combinação com licenças típicas (como as licenças GPL e BSD), garante a autoria do desenvolvedor ou organização. O segundo caso acontece quando se passam os anos previsto nas leis de cada país de proteção dos direitos do autor e este se torna bem comum. Ainda assim, um software em domínio público pode ser considerado como um software livre.

[editar] Software Livre e Copyleft

Licenças como a GPL contêm um conceito adicional, conhecido como Copyleft, que se baseia na propagação dos direitos. Um software livre sem copyleft pode ser tornado não-livre por um usuário, caso assim o deseje. Já um software livre protegido por uma licença que ofereça copyleft, se distribuído, deverá ser sob a mesma licença, ou seja, repassando os direitos.

Associando os conceitos de copyleft e software livre, programas e serviços derivados de um código livre devem obrigatoriamente permanecer com uma licença livre (os detalhes de quais programas, quais serviços e quais licenças são definidos pela licença original do programa). O usuário, porém, permanece com a possibilidade de não distribuir o programa e manter as modificações ou serviços utilizados para si próprio.

[editar] Venda de Software Livre

As licenças de software livre permitem que eles sejam vendidos, mas estes em sua grande maioria estão disponíveis gratuitamente.

Uma vez que o comprador do software livre tem direito as quatro liberdades listadas, este poderia redistribuir este software gratuitamente ou por um preço menor que aquele que foi pago.

Como exemplo poderíamos citar o Red Hat Enterprise Linux que é comercializado pela Red Hat, a partir dele foram criados diversos clones como o CentOS que pode ser baixado gratuitamente.

Muitas empresas optam então por distribuir o mesmo produto sobre duas ou mais licenças, geralmente uma sobre uma licença copyleft e gratuita como a GPL e outra sobre uma licença proprietária e paga.

[editar] Movimento Software Livre

[editar] Motivação

O logotipo da Free Software Foundation.

Os desenvolvedores de software na década de 70 frequentemente compartilhavam seus programas de uma maneira similar aos princípios do software livre. No final da mesma década, as empresas começaram a impor restrições aos usuários com o uso de contratos de licença de software. Em 1983, Richard Stallman iniciou o projeto GNU, e em outubro de 1985 fundou a Free Software Foundation (FSF). Stallman introduziu os conceitos de software livre e copyleft, os quais foram especificamente desenvolvidos para garantir que a liberdade dos usuários fosse preservada.

[editar] Ideologia: as diferenças entre Software Livre e Código Aberto

Muitos defensores do software livre argumentam que a liberdade é valiosa não só do ponto de vista técnico, mas também sob a ótica da moral e ética. É neste aspecto que o movimento de software livre (encabeçado pela FSF) se distingue do movimento de código aberto (encabeçado pela OSI), que enfatiza a superioridade técnica em relação a software proprietário, ao menos em potencial.

Os defensores do código aberto (também conhecido como Open source em inglês) argumentam a respeito das virtudes pragmáticas do software livre ao invés das questões morais. A discordância básica dos movimentos está no discurso. Enquanto o foco do movimento encabeçado pela FSF chama a atenção para valores morais, éticos, direitos e liberdade, o movimento encabeçado pela OSI defende um discurso mais agradável ás empresas. Com isso, o movimento de software livre condena o uso e desenvolvimento de software proprietário, enquanto o movimento de código aberto é conivente com o desenvolvimento de software proprietário.

As definições oficiais de software livre e de código aberto são as mesmas, porém escritas de formas distintas. A OSI define o código aberto usando a definição Debian de software livre, que é apenas um detalhamento das 4 liberdades da FSF. Desta forma todo software de código aberto é também software livre.

O movimento software livre não costuma tomar uma posição sobre trabalhos que não sejam software e documentação dos mesmos, mas alguns defensores do software livre acreditam que outros trabalhos que servem um propósito prático também devem ser livres (veja Free content).

Para o Movimento do software livre, que é um movimento social, não é ético aprisionar conhecimento científico, que deve estar sempre disponível, para assim permitir a evolução da humanidade. Já o movimento pelo Código Aberto, que é um movimento mais voltado ao mercado, prega que o software desse tipo traz diversas vantagens técnicas e econômicas. O segundo surgiu para levar as empresas a adotarem o modelo de desenvolvimento de software livre.

Como a diferença entre os movimentos "Software Livre" e "Código Aberto" está apenas na argumentação em prol dos mesmos softwares, é comum que esses grupos se unam em diversas situações ou que sejam citados de uma forma agregadora através da sigla "FLOSS" (Free/Libre and Open Source Software).

[editar] Movimentos Relacionados

Inspirados na GPL e nas propostas do movimento do software livre, foi criado um repositório de licenças públicas, chamado Creative Commons, cujos termos se aplicam a variados trabalhos criativos, como criações artísticas colaborativas, textos e software. Entretanto a maioria destas licenças não são reconhecidas como realmente livres pela FSF e pelo movimento de software livre.

O software livre está inserido num contexto mais amplo onde a informação (de todos os tipos, não apenas software) é considerada um legado da humanidade e deve ser livre (visão esta que se choca diretamente ao conceito tradicional de propriedade intelectual). Coerentemente, muitas das pessoas que contribuem para os movimentos de Conhecimento Aberto — movimento do software livre, sites Wiki, Creative Commons, etc. — fazem parte da comunidade científica.

Cientistas estão acostumados a trabalhar com processos de revisão mútua (ou por pares) e o conteúdo desenvolvido é agregado ao conhecimento científico global. Embora existam casos onde se aplicam as patentes de produtos relacionados ao trabalho científico, a ciência pura, em geral, é livre.

[editar] Software Freedom Day

No dia 20 de setembro comemora-se o Dia da Liberdade do Software (Software Freedom Day) com eventos envolvendo as comunidades de usuários e desenvolvedores de software livre em todo o mundo.

[editar] Softwares Livres notáveis

Abaixo está uma lista com os software livres mais conhecidos e usados:

Veja listas maiores no diretório da Fundação do Software Livre e em diversos outros sites de projetos na Internet.

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[editar] Ligações externas

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

O QUE É A LEI DE LINUS? DA WIKIPÉDIA

A Lei de Linus (Linus's Law) é uma lei epigramática formulada pelo hacker Eric S. Raymond. O enunciado dela é o seguinte:

"Dados olhos suficientes, todos os erros são triviais" (Given enough eyeballs, all bugs are shallow)

A frase possui relação com o modo de funcionamento da base do código aberto (open source) e da internet, em que com um grande número de colaboradores ("olhos"), qualquer problema em um sistema pode ser detectado e corrigido. Na proporção em que os colaboradores aumentam, a facilidade com que as correções são feitas também aumenta, ou seja, o número de colaboradores é diretamente proporcional à facilidade de detecção e correção do erro.

Índice

[esconder]


SURGIMENTO E USO :

O adágio foi publicado por Eric S. Raymond — um famoso hacker e ícone no movimento do código aberto e do software livre — em seu ensaio A Catedral e o Bazar, descrito no capítulo 10 ("O Contexto Social do Código Aberto"). O nome da lei é uma alusão ao finlandês Linus Torvalds, criador do sistema operacional Linux, um software livre.

De certa forma, podemos dizer que tal lei possui semelhança com o ditado popular "O olho do dono engorda o boi".

Os conceitos expressados pela Lei de Linus são tão universais que a lei tem sido constantemente usada fora do contexto puramente informático. Um exemplo é a Wikipédia, que segue um modelo baseado na lei de Linus, já que, podendo ser editada por qualquer pessoa, muitos erros podem ser gerados, mas se houver um grande número de colaboradores para cuidar dos erros, eles podem ser facilmente contornados. Isso é bem conhecido pelos administradores (ou sysops) de cada Wikipédia, que cuidam da manutenção do projeto.

Larry Sanger, co-fundador da Wikipédia, afirmou certa vez, sobre o fato de que qualquer pessoa pode criar e editar artigos na Wikipédia, que "dados olhos suficientes, todos os erros são triviais", em uma alusão direta à lei de Linus.

Tom Arriola, o desenvolvedor do Crime Scene (Cena do Crime), um site que dá aos seus milhares de membros a tarefa de resolver coletivamente mistérios de assassinatos fictícios, chamou de "efeito ocular" uma versão que postulou da Lei de Linus: "Quanto mais olhos vêem algo, mais provável é que alguém veja alguma coisa que ninguém viu antes."[1]

A ÉTICA HACKER:

A noção do próprio Linus sobre a lei foi usada em conjunto com as definições filosóficas do hacker ativo, registrada no prólogo do livro A Ética Hacker.[2]

De acordo com essa definição, a atividade que pressiona os humanos pode ser dividida em três categorias. O avanço bem-sucedido de uma fase para outra determina o processo de evolução. Estas três categorias são, em ordem: a sobrevivência, a vida social e o entretenimento.

A sobrevivência é a base da própria existência. É portanto um fator de motivação, mas em um sistema socio-econômico bem desenvolvido, não passa de uma preocupação cotidiana.

A vida social é um fator de motivação muito forte. Em muitos casos, maior consideração é dada para os laços sociais do que para a "auto-pessoa". São tarefas semelhantes aos conceitos de "morrer por sua família/por religião/pelo país".

O entretenimento é a última das três categorias. Esse "entretenimento" não está relacionado com ações como jogar jogos eletrônicos ou assistir a televisão, mas fazer algo interessante e estimulante, um estímulo positivo para a base de nossas ações. Linus Torvalds assim descreveu esta última fase: "É a ginástica mental necessária na tentativa de explicar o universo".

Pode-se observar a aderência dessas três categorias com as cinco necessidades da conhecida Hierarquia de necessidades de Maslow: fisiologia, segurança, amor/relacionamento, estima e realização pessoal, amplamente conhecidas no terreno da Administração.

Concluindo, o hacker portanto precisará fazer uso do computador para que sobreviva. O computador passa a ser o principal meio de obter relações sociais, mas acima de tudo, entretenimento. O desenvolvimento de um sistema open-source é realizada mais por causa da paixão dos desenvolvedores no seu próprio projeto, e não para meios puramente comerciais.

CRÍTICAS:

Alguns estudos contestaram a Lei de Linus, citando o número relativamente pequeno de contribuições feitas para projetos open source por pessoas "de fora", isto é, pessoas que não pertencem a um pequeno grupo principal de colaboradores.[3] Isso é, em grande parte, o resultado do investimento necessário que os colaboradores precisam realizar para manter positivamente os ajustes na interface do usuário e entender um pouco do código antes que possam efetivamente contribuir para o mesmo.

Alguns projetos também não confiam em contribuições externas, temendo que eles possam criar bugs difíceis de serem encontrados ou brechas na segurança, e assim esses projetos criam um inconveniente processo de revisão que pode prejudicar desenvolvimento externo.

Os defensores do código aberto argumentam, no entanto, que existem maneiras de se minimizar estes problemas e de se facilitar a integração de colaboradores externos. Seguindo práticas efetivas de engenharia de software, é possível produzir um código de fácil manutenção. Os exemplos podem incluir o uso de componentes modulares com acoplamento frouxo, ou um bom conjunto de testes para a verificação das contribuições externas, ou uma simples estratégia de desenvolvimento suportada por ferramentas como o autoconf.

Também é considerado uma ajuda importante ter uma boa documentação, incluindo tanto uma visão geral quanto descrições detalhadas da interface, opcionalmente suportadas por ferramentas como o Javadoc e ferramentas de visualização de código. Porém nem todos os projetos open source implementam tais medidas.

Outro argumento contra o código aberto é o de que falhas de segurança podem ser facilmente encontradas pelo exame do código fonte, destruindo efetivamente qualquer segurança por obscuridade (en:security through obscurity). Outros dizem que isso é um ponto forte: significa que não apenas usuários maliciosos, mas também desenvolvedores externos e usuários legítimos, podem encontrar tal falha de segurança mais facilmente e diagnosticar ataques mais rapidamente. Por serem expostos rapidamente e para mais pessoas, os problemas de segurança podem ser consertados antes que a aplicação esteja completamente desenvolvida e eles se tornem um problema mais sério.

Notas

  1. ↑ Terdiman, Daniel (2005-02-14). Brute Force for Brain Teasers. URL acessada em 16 de Abril, 2006.
  2. ↑ Himanen, Pekka; Linus Torvalds, Manuel Castells (2001-01-30). The Hacker Ethic, Random House. ISBN 0375505660.
  3. ↑ Obasanjo, Dare (2002). The Myth of Open Source Security Revisited. URL acessada em 16 de Abril, 2006

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Wikisource
O Wikisource tem material relacionado a este artigo: A Catedral e o Bazar
FONTE: http://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_de_Linus

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Pekka Himanen, filósofo finlandês. (fragmentos)

Ao estudar a cultura hacker, o filósofo finlandês Pekka Himanen escreveu:

“A ética de trabalho dos hackers consiste em combinar paixão com liberdade, e foi essa a parte da ética dos hackers cuja influência foi sentida com maior intensidade.” (…) “um terceiro e crucial aspecto da ética dos hackers é a atitude dos hackers em relação às redes, ou seja, é a sua ética da rede, que é definida pelos valores da atividade e do cuidar. Atividade, nesse contexto, envolve a completa liberdade de expressão em ação, privacidade para proteger a criação de um estilo de vida individual, e desprezo pela passividade frente à procura pela paixão individual. Cuidar significa aqui a preocupação com o próximo como um fim em si mesmo e um desejo de libertar a sociedade virtual da mentalidade da sobrevivência que tão facilmente resulta de sua lógica.” (p.126)(...)

FONTE: http://ceticismo.wordpress.com/comportamento/hackers-monopolios-e-instituicoes-panopticas/

"Por causa dessa ênfase na criatividade, a ética dos hackers dever ser, em última análise, considerada diferente tanto da ética do protestantismo quanto do pré-protestantismo. [...] por esse motivo, representantes de um espírito completamente novo, cujo o significado apenas começamos a compreender" Fragmento do livro :"A ética dos hackers e o espírito da era da informação". Tradução de Fernanda Wolff. Rio de Janeiro: Campus, 2001, p.135.

Fonte: http://www.ciborgs.org/2004/06/pekka-himanen.html

The Hacker Ethic and the Spirit of the Information Age - Pekka Himanen

Pekka Himanen, Linus Torvalds ("Prólogo") & Manuel Castells ("Epílogo"), Nova York, Random House, 2001.

por Osvaldo López Ruiz

O título deste livro e as diferentes trajetórias dos autores certamente chamam a atenção, mas também podem desconcertar. O autor é o finlandês Pekka Himanen, doutor em filosofia pela Universidade de Helsinki aos 20 anos. Ainda com menos de 30, trabalha na Universidade de Berkeley com Manuel Castells, de origem catalã e hoje um dos sociólogos mais renomados do mundo, autor da trilogia A era da Informação (1996-2000). Com mais de 20 títulos publicados, Castells é o responsável, neste caso, pelo "Epílogo". O "Prólogo", no entanto, está nas mãos de Linus Torvalds, uma lenda viva dentro do mundo da informática, com pouco mais de 30 anos e também originário da Finlândia.

Torvalds criou, em 1991, o Linux, um kernel para o sistema operacional livre GNU (veja texto sobre software livre), quando estudava em Helsinki. A palavra kernel pode ser traduzida por cerne ou âmago, ele é uma parte central do sistema operacional. Hoje, o Linux é um projeto que envolve milhares de programadores e milhões de usuários no mundo todo e continua a ser desenvolvido por eles mesmos em forma aberta e cooperativa. Atualmente, o Linux é visto como a maior ameaça para a hegemonia da Microsoft, embora sua mais importante inovação seja mais social do que técnica: uma forma de trabalho coletivo onde as informações estão disponíveis livremente para todos, princípio básico da ética do hacker.

O livro trata do surgimento de uma nova ética do trabalho, diferente da ética protestante tão bem descrita por Max Weber há quase cem anos, onde a noção de trabalho aparece como dever, como vocação. A nova ética do trabalho é a caracterizada, pelos hackers. Mas, quem são esses hackers? A partir da própria orelha do livro, Himanen avisa: não se trata dos criminosos da computação -sentido recente e desafortunado que está tomando este termo-, mas sim dos hackers no sentido original da palavra, os entusiastas programadores de computação.

Entretanto, a bibliografia usada novamente desconcerta: de Platão a Richard Stallman - um dos maiores precursores do "hackerismo" e criador do GNU - à regras beneditinas e "statements" da SUN Microsystems, passando por Castells, Baudrillard, Dante e Agostinho (entre outros!). Surge então a inevitável pergunta: será que o autor conseguiu unir tantas e tão heterodoxas pontas e apresentar para o leitor um argumento convincente sobre uma nova ética do trabalho? Embora deixando temas em "aberto", com muito de exploratório e sem a densidade rigorosa que se espera de qualquer "Ética", o autor consegue definir um texto coerente e dinâmico. Com originalidade, coloca em diálogo algumas das grandes preocupações do homem de hoje e as questões do homem de sempre, mas, neste caso, apontadas para o atual contexto da Era da Informação.

A nova ética do trabalho, principalmente encarnada na atualidade pelos hackers, tem como precursora a academia. Os acadêmicos foram sempre um exemplo de relação mais flexível e livre com o trabalho. Por conseguinte, o autor apresenta no percurso do livro uma definição mais abrangente de hacker. Hacker é aquele entusiasta em qualquer tipo de trabalho, aquele que realiza seu trabalho com paixão, habilidade e cuidado artesanal. Aqui Himanen toma carona de um postulado dado por Torvalds no seu curto prólogo. Para o criador do Linux, existem três categorias básicas de motivações: a sobrevivência, a vida social e o entretenimento. Essa última, que vem depois de superadas as duas primeiras, deve ser entendida com E maiúsculo pois trata-se do tipo de estímulo que nos tira do tédio e do aborrecimento dando sentido às nossas vidas. Esclarece Torvalds que não está falando do entretenimento no sentido de jogar Nintendo mas sim do xadrez, da pintura e "da ginástica mental que envolve tratar de explicar o universo". Por isso, o Entretenimento pode ser qualquer coisa intrinsecamente interessante e desafiante, mas no entanto fundamental na vida de cada pessoa.

Himanen, contudo, traduz "Entretenimento" por paixão: a dedicação a uma atividade que seja intrinsecamente interessante, inspiradora e que cause regozijo. Trata-se, diz, do tipo de relação apaixonada com o trabalho que historicamente caracterizou o mundo intelectual. Critica, portanto, a relação do trabalho com o tempo estabelecida pela ética protestante. A ética protestante baseia-se no postulado: "tempo é dinheiro" e coloca o tempo regular do trabalho como o centro da vida das pessoas. Hoje, se pretende não só a otimização do (tempo do) trabalho mas também a "otimização da vida". O que acaba acontecendo é que o tempo de lazer e até o cuidar dos filhos assumem o padrão do tempo de trabalho. Fala-se muito, por exemplo, de "tempo flexível" mas, segundo o autor, essa nova flexibilidade, embora contribua para uma organização mais holística do tempo, está reforçando a centralidade do trabalho e as novas tecnologias estão ajudando particularmente isso a acontecer, afirma Himanen. Os hackers, porém, não subscrevem ao adágio "o tempo é dinheiro", e sim "o tempo é minha vida".

Neste sentido, a ética protestante sempre foi uma ética do dinheiro. Segundo Weber, o valor mais alto era "ganhar mais e mais dinheiro". Entretanto, na prática, tanto o trabalho, como o dinheiro constituíram-se em fins em si mesmos. Ainda mais; no antigo capitalismo, argumenta Himanen, o trabalho, como valor, posicionava-se mais alto que o dinheiro e, por isso, foi entendido como ética do trabalho protestante. Na nova economia, entretanto, mesmo que ainda possua um valor autônomo importante, o trabalho foi subordinado ao dinheiro. É assim que a nova economia informacional é também uma prolongação da antiga ética protestante. O que é enfatizado como valor supremo é justamente o dinheiro. Para os hackers, pelo contrário, o fator organizador básico da vida não é nem o trabalho, nem o dinheiro, é a paixão. Sua ética de trabalho enfatiza a atividade apaixonada e o ritmo livre do uso do tempo.

Entretanto, se no paradigma industrial uma pessoa era treinada para trabalhar das nove às cinco durante toda sua vida produtiva, esse não é mais o caso na economia informacional. O novo profissional informacional é "auto-programável ", tem a habilidade de re-treinar a si mesmo e adaptar-se a novas tarefas e processos. Ele deve aprender a ser seu próprio gerente e programar-se para trabalhar mais eficientemente. Não é por acaso, então, que muitos deles buscam a literatura de auto-ajuda, a literatura de "desenvolvimento pessoal". Himanen analisa um a um seus postulados e constata uma coisa interessante. Essa literatura ensina as mesmas virtudes que a velha ética protestante ensinou através de Franklin. Mais ainda, essas virtudes têm seu precedente nas regras monásticas Beneditinas, na era medieval. São valores no sentido filosófico tradicional, ou seja, os objetivos finais que guiam a ação. Coloca o autor que, tanto no mosteiro, como na literatura de desenvolvimento pessoal, o que se oferece é a promessa de uma experiência de claridade e certeza para a vida. A vida torna-se mais manejável se reduzida a um objetivo para cada momento no tempo. Cada pessoa só precisa se concentrar em um ponto fixo e excluir todo o resto. Particularmente numa era como a nossa, complexa e acelerada, essa literatura promete um novo tipo de "salvação". Não é por acaso que ela, como também diferentes fundamentalismos, tornaram-se mais atrativos na sociedade rede.

O autor conclui que, tanto nessa literatura de desenvolvimento pessoal, quanto no espírito da sociedade rede em geral, a lógica das redes de computador é aplicada aos seres humanos e a suas relações: "Os seres humanos são tratados como computadores, com rotinas mentais que sempre podem ser re-programadas de forma melhor...a gente deve se conectar com pessoas que são úteis para o nosso objetivo e se desconectar daqueles que não o são ou que inclusive sejam prejudiciais ao objetivo..." A lógica da rede e do computador nos aliena da preocupação direta com os outros, preocupação que é o começo de toda conduta ética. Na "sociedade-rede" [1] a ética teria sido substituída por uma filosofia de sobrevivência, e isto se explica a partir da atual relação com o tempo. A ética [2] precisa do pensamento sem pressa e da perspectiva temporal de longo prazo. Com a aceleração atual das práticas sociais surge, segundo Himanen, uma "barreira ética", uma velocidade a partir da qual a ética não pode mais existir.

Himanen vê nos valores que guiam a conduta dos hackers a saída, poderíamos dizer, desta versão exacerbada -e até distorcida- da ética protestante. Na ética do hacker, o principal valor é a paixão, entendida como uma busca intrinsecamente interessante que regozija com sua realização. Os outros valores são a liberdade, no sentido de que o trabalho seja criativo e tenha espaço para o jogo e a experimentação, a abertura e o sentido social -a Internet e o computador pessoal, lembra Himanen, não existiriam sem os hackers que deram sua criação para outros- e, finalmente, o que ele chama de atividade e preocupação. A atividade é definida como a liberdade de expressão em ação. Ela inclui: privacidade para proteger a criação do estilo de vida individual próprio e rejeição da receptividade passiva, em benefício de uma busca ativa da própria paixão. A preocupação, no entanto, é o interesse pelos outros colocado como um fim em si mesmo e o desejo de se libertar, na sociedade-rede, da mentalidade de sobrevivência que tão facilmente surge como resultado de sua própria lógica. É por tudo isso que o autor acredita que a ética do hacker pode representar um espírito genuinamente novo. Nele, o sentido não pode jamais ser encontrado no trabalho, nem mesmo no puro lazer. Ele tem que surgir da natureza própria da atividade, da paixão, do valor social e da criatividade.

O "Epílogo" de Manuel Castells -a verdade seja dita- não tem muito a ver diretamente com a ética do hacker. Dá, isso sim, o contexto do mundo em que vivemos e assinala as profundas transformações que nos levaram do paradigma industrial ao informacional e, também, da mudança qualitativa que representa para a experiência humana viver em um novo tipo de sociedade: a "sociedade-rede". Trata-se, na realidade, de um bom resumo da Era da informação -mas insuficiente quiçá, para quem ainda não leu a trilogia [3] - com algumas poucas ênfases novas a respeito da primeira edição de 1996 (a importância da revolução da engenharia genética, as características de "autômato" que tem tomado a estrutura social de rede, etc.). Reserva, no entanto, só o parágrafo do final para salientar a importância inovadora da teoria de Himanen sobre "a cultura dos hackers como o espírito do informacionalismo" -note-se que Himanen não fala exatamente disso, mas da ética dos hackers como alternativa possível ao espírito que está prevalecendo no informacionalismo. Mesmo assim, a leitura do "Epílogo" de Castells vale a pena como outra nova e sintética reformulação de sua instigante teoria sobre a desconcertante realidade em que vivemos.

No final, Himanen oferece em um apêndice uma "Curta história do hackerismo computacional" para quem não esteja muito familiarizado com a cultura dos hacker -informaticamente falando, claro.

[1] "Network society", conceito desenvolvido por Castells na Era da Informação (1996) para caraterizar a morfologia social da sociedade atual. (voltar)
[2] No original em inglês "ethicality": qualidade do que é ético. (voltar)
[3] Para uma versão também resumida, porém, teoricamente mais densa, veja-se, do mesmo autor, "Materials for the exploratory theory of the network society", The British Journal of Sociology, V.51, N°1, janeiro-março 2000, ps. 5-24 ou a excelente conclusão geral da trilogia no final do terceiro volume. (voltar)

Osvaldo López Ruiz é sociólogo, professor na Universidade Nacional de Cuyo, Argentina e doutorando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas.

LEIA MAIS EM :

Ética e Poder na Sociedade da Informação
Gilberto Dupas

Cibercultura
Pierre Lévy

FONTE : http://www.comciencia.br/resenhas/hacker.htm

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